De cinco em cinco

Eu tenho cinco anos. Sou uma menina e hoje é meu aniversário. Estou feliz porque vou ganhar milhares de presentes, minha mamãe chamou meus amiguinhos do colégio para vir passar o dia aqui em casa e eu sei que eles trarão muitos presentes para mim. Mamãe e papai prometeram me dar uma casa da Barbie, aquela casa rosa que eu sempre sonhei. Estou tão feliz. Hoje de manhãzinha minha mãezinha me acordou com um beijo e fez o sinal da cruz na minha testa e ela chorou, e eu vendo aquela cena até me esqueci dos presentes, abracei-a e pus-me a chorar com ela. Eu te amo mamãe.

Eu tenho 10 anos. Sou uma pré-adolescente e hoje é meu aniversário. Estou feliz porque minha mãe decidiu, após muita insistência, fazer minha tão sonhada festa naquele salão de festas lindo, que todas as minhas amigas fizeram. E eu ganharei presentes. Minha mãe e meu pai disseram que me dariam um computador novo e eu quase pirei agora eu não vou ser a única chata na sala, agora eu tenho computador. Hoje, minha mãe me acordou de manhã, me deu um beijo, fez o sinal da cruz na minha testa. Eu vi tudo aquilo acontecendo e sorri, voltando logo em seguida a dormir, mas não pude deixar de dizer que eu a amava muito.

Eu tenho 15 anos. Sou uma adolescente e hoje é meu aniversário. São meio dia e eu sei que era para eu estar no salão de beleza a esta hora, mas eu não vou debutar. Vestido longo não é para mim, muito menos dançar, eu preciso ir á festa dos outros, dançar a vontade, paquerar e curtir meus quinze anos. Até que enfim! Hoje convenci minha mãe a me deixar sair com galera, ela implicou porque não tinha amigos da minha sala, mas são todos caretas e crianças e esses meus novos amigos são mais legais, muito mais legais. Eles têm a mesma idade que eu, mas não são pirralhos que nem aqueles garotos da minha sala. Mas ela deixou. E eu fui. Sem pais, só agente, conversamos sobre tudo, zoamos muito. È tão bom estar com meus amigos. Não ganhei nada de presente e ainda paguei a conta da pizzaria, mas eu amei. Quando cheguei em casa era 03:00h da manhã e minha mãe veio na minha cama, perguntar se eu estava bem e como foi, eu respondi meia sonolenta e ela veio me dar um beijo, fez o sinal da cruz na minha testa e chorou, eu não respondi nada e ela foi embora.

Eu tenho 20 anos. Sou uma mulher, passei no vestibular de tecnologia e hoje é meu aniversário. Com tanta pressa nem pude curtir muito ele, vida de estudante é fogo. Minha mãe insistiu em que eu desse uma passada em casa para comer um bolinho, eu aceitei. Fiz viagem de volta lá de Seropédica e cheguei à casinha que eu não vejo faz um ano. E lá estavam todos,tios, primos, amigos dos meus pais, colegas antigos do ginásio entre outras pessoas que eu não sabia quem eram. Minha mãe apareceu com um bolo todo enfeitado e deu um sorriso enorme, eu retribui e dei um abraço nela. Comemoramos um pouco mais já era tarde eu tinha que voltar para a república, porque amanhã eu tinha prova. Meu pai insistiu em que eu levasse um pedaço de bolo para a viagem já que a mesma era longa. Eu aceitei. Na hora da partida minha mãe me gritou, me deu um beijo no rosto e fez o sinal da cruz em minha testa, sorriu e disse: eu sempre soube que você ia longe minha filha, eu te amo. Mas eu estava com pressa, só entendi o eu te amo e mais nada, o ônibus já estava no ponto e eu respondi com um: Ok Ok, eu também mãe.

Eu tenho 25 anos. Sou uma mulher madura, formada e casada. Pois é me casei ano passado com um bom moço, responsável, humilde e que gosta de mim. Enfim, hoje é meu aniversário. E meus pais vieram visitar-nos, trazendo doces, bolas e um bolo, aquele bolo da minha mãe. Nós não estávamos preparados para receber visita, mas eram meus pais, eles não ligariam. A casa até que estava arrumadinha só um pouco empoeirada. Comemoramos um pouco, mas eu e meu marido queríamos passar mais tempos juntos. Meus pais entenderam e foram logo embora. Antes disso, porém, minha mãe, me deu um beijo na mão e fez um sinal da cruz na minha barriga e eu percebi uma lagrima caindo de seus olhos. Eu sorri e disse a ela que seu neto virá em breve, era só tempo para organizar melhor as coisas para sua chegada. Ela sorriu e se foi.

Eu tenho 30 anos. Sou uma mulher já não tão nova, fiz pós-graduação em tecnologia e sou mãe de uma menina linda chamada Maria Eduarda. Ela tem 5 anos e hoje é seu aniversário. Eu chamei todos os seus amiguinhos para virem aqui e eu e seu pai compramos uma Barbie linda para ela. Meus pais estão aqui, e eles mimam demais a Duda, chamam-na de Dudinha. Ela está feliz, ganhou muitos presentes e a festa acabou. Minha mãe antes de ir embora, me deu um beijo no rosto, fez o sinal da cruz na minha cabeça e falou assim: “Agora minha querida filha, chegou o momento de você começar a fazer tudo o que eu sempre fiz contigo. Sua filha agora precisa de alguma proteção, então, a proteja. Seja uma mãe como eu fui pra você. Ame-a com todas as suas forças. Chore se for preciso chorar, ria se for preciso rir. Não a deixe ir se não for para deixar. Só você sabe o que é melhor para ela.” Logo após ela me falar isto, quem chorou desta vez foi eu e não foi apenas uma lágrima disfarçada em sorrisos, somente minha mãe tinha este dom, porém, eu precisava aprender. Eu era a mãe agora. Quando minha mãe foi embora, fui ao quarto da Duda, ela estava acordada, eu sorri, dei um beijo em seu rosto, fiz o sinal da cruz em sua testa e me pus a chorar. Ela se levantou e disse no meu ouvido, assim bem baixinho: “Mãezinha, eu te amo muito!”.

Hoje eu tenho 40 anos. Sou uma pré-velhinha. Minha filha tem 15 anos e é igualzinha a mim quando desta mesma idade. Hoje é seu aniversário e quem ganhou presente fui eu. Descobri o que minha mãe pedia quando fazia o sinal da cruz em minha testa. Ela dizia assim: “Deus minha filha é igualzinha a mim, faça com que ela se torne uma mulher igual a mim e alcance tudo que ela quiser”. Hoje eu entendi tudo. E sempre que minha filha se põe a dormir eu vou lá, quietinha, lhe dou um beijo na testa, faço o sinal da cruz em sua testa, peço, intercedo pela minha filha e logo em seguida choro, mas aquele chorinho silencioso que só quando se é mãe, mas mãe mesmo, se aprende a dar.

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