A menina

                Esta é uma história – muito linda por sinal –, como outra qualquer, com sonhos, alegrias, tristezas, aventuras, intrigas e muito, mas muito amor. Este é um texto que fala do amor incondicional de um trio de pessoas unidas pelo coração e que fariam não só o possível, mas o impossível, uns pelos outros. E eu que somente os observava de longe sei de tudo isso.

                Estava andando tranquilamente pelo parque, na minha monótona vida de escrever sobre o que via e o que lia, quando de repente os vejo pela primeira vez. A princípio nada de espantoso, nada de anormal e após constatar que aquela cena nada me dizia, volto a alimentar os pombos como faço de costume e foi quando vi o pequeno espetáculo que aqueles três humanos faziam. Não era nada de sensacional – e acreditem em mim, era até simplório demais -, porém me foi o suficiente para chamá-los de Super heróis.

                Com os olhos presos ao papel que sempre levo ao bolso, pego minha caneta e começo a escrever sem mesmo olhar para ele, com os olhos presos naqueles três. Não consigo ao certo, descrever totalmente cada ação que eles tomavam, mas aquelas imagens nunca sairão da minha memória – nunca –, ainda haverá muito tempo para escrever.

                Já passava das três da tarde e ainda havia alguns pombos esperando por seu alimento diário, mas eu não conseguia pensar em mais nada a não ser neles, somente neles, o motivo por escrever este texto.

                Eram pai, mãe e filha. A menina ia à frente correndo atrás dos pombos do parque como se eles fossem lhe dar algum presente de natal ou algo do gênero, e a cada minuto virava para trás e falava algo aos pais que da distância em que eu estava não conseguia perceber, mas uma coisa eu constatava e com muita alegria: o sorriso de seus pais, sinalizando o caminho em que a mesma deveria ir para não se machucar. Ah, os pais! Pois bem, a mãe com uma máquina fotográfica presa ao pescoço e o pai que batia suas mãos umas nas outras na tentativa de espantar o frio, e que logo após corria atrás da filha para ajudá-la a espantar os pombos. Depois a pegava no colo e a rodava em seus braços fazendo com que sua mãe ficasse preocupada e corresse ao encontro dos dois, acabando por tirar várias fotos.

                O que me deixava mais alucinado, era que a aquela menina de uns oito anos – no máximo -, era o elo daquela família, era a ponte, o selo. Foi quando preso em meus pensamentos e viajando na felicidade daquelas pessoas, vejo que a menina se aproxima de mim com muita rapidez, na tentativa de espantar os últimos pombos que estavam justamente ao redor do homem que a descrevia. Chegando perto, começou a andar devagar e a sorrir para mim, um sorriso que poderia até me deixar em êxtase se ela não estivesse tão próxima. Com seus passos miúdos, se aproxima e senta ao meu lado no banco do parque e tão logo diz:

– O senhor está alimentando os pombos?

                Faço que sim com a cabeça, incapaz de respondê-la. Ela mesmo assim continua:

                – O senhor poderia me dar um pouco desse pão que está dando para os pombinhos? Quero alimentá-los também.  – Diz ao sorrir.

                Mesmo em transe pego o pote onde estão as migalhas de pão e estendo para a menina. Ela na mesma hora enche sua mão com elas e me sorri. E mesmo que na pressa de continuar a brincar com os pombos ela não tenha me dito “obrigada”, aceito completamente seu lindo sorriso como pagamento de muitos obrigados. Agora, vejo-a se afastar de mim, desta vez na certeza de que não veria mais seu lindo rostinho de perto novamente.

                Agora estão indo em direção à lanchonete, tamanha foi à insistência da menina para comer algo. Sentam-se à mesa, a menina e o pai.  A mãe pode-se concluir que fora comprar o lanche. A filha – tão rápida – pega na sua bolsinha um bloco de folhas e começa a escrever algo. Quem dera fosse sobre mim, estaríamos escrevendo um sobre o outro. Pensei em me dirigir até ela e ver o que fazia, mas concluí que era melhor ficar onde estava – não fazia sentido algum ela saber que me importava com o que fazia. Fiquei só a contemplá-los, como faço desde que os vi, pela primeira vez.

                Continuo a os observar – de longe, claro, mas contente por vê-los tão felizes a correr –, quando percebo que estão se dirigindo à saída. Não que seja difícil viver sem imaginar aquela linda imagem de uma família tão próxima a mim, mas seria horrível, ter que parar de escrever sobre eles, sobre o amor deles e a união que me parece tão forte.

                Primeiro os pais saem e gritam pelo nome da menina que ainda volta correndo em direção a algo que não sei ao certo o que é. Volto meu rosto em direção ao papel, na tentativa de escrever sobre esta incógnita, sobre o lugar para onde a menina fora ou sobre o que esquecera e é que quando volto meus olhos à procura dela, que percebo a menina que eu tanto escrevera, à minha frente, com os olhos brilhando, uma estranha sensação de medo, porém com um papel em suas mãos. Ela o estende a mim e sorri, dizendo:

– Obrigado, moço dos pombinhos!

E vai embora, correndo em direção a seus pais que não sabem ao certo o que ela veio fazer perto de mim. E eu – com o papel de sua história dobrado nas mãos e a carta que ela me dera na outra –, vejo-os passar felizes tão logo pelo portão do parque e assim que suas imagens sumiram no horizonte, me dirijo ao cartão, abro-o e me emociono com o que vejo. O cartão que ela com tanto trabalho escrevia na mesa da lanchonete era para mim. E nele havia um homem e uma menina, desenhados a traços simples, mas que me diziam tudo. E logo abaixo desta linda imagem, vejo um pequeno texto, que valeria muito mais do que esta história que eu conto a vocês.

Eu sei que você escreveu sobre a gente!

Obrigada, moço dos pombinhos!

                E eu que de longe observava aqueles três, desde manhã, que não passavam de pequenos seres humanos em suas finitas vidas nada sem graça, com atitudes que qualquer família poderia tomar, mal percebo que minhas lágrimas também se emocionaram com aquela cena, fazendo questão de mostrar a qualquer um a história que presenciamos hoje. Até elas, que nunca fizeram questão de aparecer. E eu luto até hoje, para que um dia, quando a minha menina estiver maior, escreva também sobre o que vira no parque. Um velho homem, alimentando os pombos e escrevendo uma história, onde a personagem principal era ela, até as lágrimas chorarem.

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