Por onde anda meu autor?

            Nada escrito; incrível seria se este livro tivesse alguma palavra e mais estranho seria se fosse feito para alguém, entretanto mesmo em meio à indagações e sem nada a ser escrito, ele modificava a vida de muitas pessoas, eu só não sabia disto, quando comecei a folheá-lo.

            Era um livro simples, de capa dura, folhas amareladas pelo tempo, meio velhaco e sujo nas pontas, parecendo ter sido jogado em uma poça d’água, me fazendo concluir cada vez mais espontaneamente que alguém não o quisera mais e por mais que isto me soasse cada vê mais estranho – mal percebia – que tudo aquilo já havia me enfeitiçado.

            Nenhuma palavra. Para quem escuta isto, acaba por achar que estou mentindo – ou simplesmente – que fiquei doida da cabeça, mas não me importo já que o que vi – ou melhor, o que não vi –, me dissera muitas coisas.

            Não havia título. Eram folhas em branco e para não dizer que não havia nada nelas, existiam pingos marrons derramados em suas bordas, como se o autor daquela linda história que ainda não havia começado – por mais que marcasse pag. 20 –, quisesse nos dizer algo, mostrar que até um grande escritor pode ter seus momentos onde há falta de criatividade, onde que por mais que queira escrever um incrível conto, você simplesmente não consegue. Sensacional, isto era o que pensava antes de desvendar seu real motivo, sua sincera verdade.

            Não existia autor. Talvez ninguém quisesse assinar por aquele livro. Ora fosse por medo, ora por ser uma obra inacabada, por não ter um fim e por ser muito real. Acaso fosse o fato de não se enquadram a ninguém, já que se encaixava a todos. Poderia querer ele dizer tantas coisas sem mencionar nenhuma palavra? Talvez ele fosse apaixonado pelo silêncio, escrevesse com tinta branca e quisesse eternizar um romance, ou – pensando bem –, ele não quisesse escrever.

            Fico a imaginar a cena: meu digníssimo autor a frente de uma simplória mesa, sentado em uma cadeira enferrujada. A sua frente folhas amareladas pelo tempo, ao seu lado um tinteiro, uma pena em uma das mãos e na outra sua dignidade, era igual uma balança só faltou coragem. Coragem para seguir em frente e escrever, porém esta limitação fora suficiente para atrair milhares de pessoas, que buscavam simplesmente um lugar para refletir, onde pudessem parar e olhar para o nada e ao mesmo tempo para o tudo. Apenas isto.

            Havia leitores, não havia palavras. Não havia tinta, mas havia muita coisa para refletir e neste caso folhas brancas tendem a ser suas melhores amigas.

            Contudo, ainda me pergunto “por onde andas meu digníssimo autor?”

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