Fuga da realidade

            E eu gostava tanto de você.

          Gostava. Não significa que goste mais. Sabe quando passo a usar o pretérito perfeito e já não ligo para o que houve ontem, o motivo por ter chorado e reclamado da vida – pensa! –. Já não me importo quantas vezes disse que te amava e que queria estar ao seu lado. Que inocência! E para não ser totalmente irracional e não dizer que fui a voz ativa de nosso relacionamento você também me disse muitas coisas, dentre elas “eu te amo” foi o que mais usou, e olhe como estamos agora. Talvez se você não tivesse dito isto tão rápido fosse até verdade.

            Dividimos planos, contamos histórias – eu sonhos e você mentiras –, demos nomes a estrelas, fomos amigos, rimos ao telefone até minha mãe descobrir que ainda estava acordada – e eram 2 horas da manhã –, tínhamos vergonha de milhares de coisas, eu gritava seu nome, você sorria e por mais que fossem poucas vezes andamos de mãos dadas.

            Como a vida dá voltas. Ora estamos perdidamente apaixonados um pelo outro, ora nenhum dos dois sequer lembra-se o nome. O mundo é assim, a vida é desta maneira. Fazemos planos que não sabemos nem se acontecerá o que marcamos para amanhã. Ficamos cegos, gostamos disto; mas existe um momento em que simplesmente acordamos e percebemos que tudo o que vivemos não era um problema irreversível, que não teria cura. O amor tem cura, cura para não amar mais. E é neste momento que percebemos que simplesmente sonhamos, um sonho bom hei de convir, porém foi somente um sonho e ninguém dorme para sempre, um dia – querendo ou não – você acorda, pro seu próprio bem.

            Hoje me lembrei de você e também me lembrei de tudo o que pensei em viver, de nossos planos, de nossas lembranças, quis e não quero mais. Pensei, porém não penso mais. Existem palavras que não valem ser mencionadas ao lembrar de você, não valem, porque simplesmente me fazem deduzir que pensar em você é um erro, que não é necessário, por mais que seja inevitável. Meu alivio é saber que estas são apenas lembranças, lembranças de um passado não muito bom.

            Percebo neste momento que me perdi em minha própria narração. Esta seria para não falar de você, era somente para te mencionar, mas fiquei em tamanho êxtase e flutuando em minhas lembranças acabei por escrever sem perceber cada palavra, cada acentuação. O objetivo era para lhe dizer que não tenho nem um terço do amor que possuía por ti, porque não tenho.

            Agora acabo de concluir que fugi – realmente – de meu próprio pretexto, porque “não” gosto tanto de você, que até lhe escrevi um texto. O mais engraçado é que ninguém erra duas vezes, mas “ninguém” não sou eu.

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4 comentários sobre “Fuga da realidade

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