Força do hábito

            Hoje eu não quero escrever. Não quero redigir uma só palavra. Não estou em condições de dizer o que penso, até por que não estou pensando em nada, quero apenas esvaziar a minha cabeça, imaginar um lugar perfeito, livre de todas as preocupações do mundo, onde houvesse um papel e uma caneta se estivesse com vontade de escrever.

            É só uma fase, um momento em que o que mais você gostaria é de ter uma nave particular estacionada na sua garagem, para viajar pelo espaço, sem pagar tarifa, simplesmente pela diversão e pela distração, onde você parasse na lua, deitasse na gravidade e desse nomes as estrelas. É só uma fase, uma fase eu que não quero que passe.

            Amanhã eu não escreverei e depois eu não sei. Por mais que seja força do hábito pegar uma folha e uma caneta e nela escrever uma linda história, creio que perdi o jeito de escrever. Já não sei como começar, já não me importo se minha história agradará a alguém, eu escrevo para mim e somente a mim ela agradará, se alguém se identifica não é proposital, se minhas histórias, meus contos, minha vida, se relaciona a de milhares de pessoas e estas ficam felizes e sorriem por dividirem a dor ou as questões, fico feliz da mesma maneira, pelo menos ajudo a alguém. Quanto a mim, já não sei escrever.

            Fico a olhar para o nada, buscando uma inspiração que nunca vem, quanto mais o tempo passa mais vejo que ela não existe. Paredes brancas dizem que nos fazem refletir, que bom para eles, quanto a mim não me vem nada à memória, não tenho nada a dizer a você, não tenho nada a escrever.

            Não quero escrever. O que escrevo não modifica nada. O que muda se eu disser que há crianças na rua passando fome, que existem políticos roubando fortunas e estão soltos, enquanto pais roubam um saco de arroz e são presos por 15 anos e perdem a oportunidade de ver seus filhos crescerem. De que adianta eu falar que esses filhos se envolvem no mundo do crime por verem sua família passar fome e esta é a única forma de ter um pedaço de pão para dar a sua irmã. Mudaria algo se eu dissesse que aquelas crianças que vendem balinhas na rua estão morando debaixo da ponte e estas em vez de estudar, estão ali implorando para vocês comprarem a comida delas? Ah, quanta coisa eu teria a dizer.

            Tanto a dizer, mas eu não quero escrever. Não hoje, nem amanhã, depois? Quem sabe. Eu só busco algo para escrever, eu só quero um objetivo. Eu só preciso se um motivo, você poderia me dizer o que acha?

            Mal percebi que hoje eu parei para não escrever e deu uma folha toda. Uma escritora que se preze, escreve sem nenhuma vontade de escrever, do mesmo jeito que ama sem querer amar e sofre sem querer sofrer.

Anúncios

2 comentários sobre “Força do hábito

  1. Vitor Oliveira disse:

    Mari, gostei bastante de seu texto. Porém discordo em uma parte: “De que adianta eu falar que esses filhos se envolvem no mundo do crime por verem sua família passar fome e esta é a única forma de ter um pedaço de pão para dar a sua irmã.”

    As pessoas não se envolvem no mundo do crime por ser a única forma de conseguir seu sustento e sim por ser a maneira mas fácil pois, estás mesmas pessoas que assaltam elas poderiam ir em um canteiro de obras e conseguir um trabalho (diferente de emprego no qual você tem carteira assinada) porque ali sempre necessitam de mão-de-obra. Neste lugar o trabalho é bem cansativo e você difilcilmente terá carteira assinada entretanto você consiguirar ali seu sustento de forma digna sem precisar prejudicar ninguém.

    beijos lindinha!

O que achou do texto?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s