Tem alguém aí?

            Minha visão do mundo é – com certeza – bem diferente da sua, por que enquanto você reclama do forte calor que está em nosso estado, eu agradeço por não chover e conseguir eu dormir no seco. Enquanto você reclama de que o lixeiro está passando cada vez mais tarde, eu agradeço por ter mais tempo de recolher coisas para vender. Este é o nosso mundo, porém eu o vejo com mais dor.

            A vejo com mais dor por que sou pobre, minha mãe é pobre, meu pai é pobre e nós não temos cachorro, por que se tivéssemos com certeza ele seria vira lata. Sei que o fato de falar em cachorro no meio deste texto é – digamos – fútil, mas nada mais tem graça na minha vida a não ser brincar com o que não tenho.

            Todo dia é a mesma coisa, a gente acorda com o som de carros e passos rápidos. Andamos e é como se fomos celebridades nas ruas, mas eu sei que só olham para nós para tentar não nos imitar, pelo menos foi o que meu pai me contou. Meu pai é um cara muito legal, ele acorda cedinho e sai pra recolher os lixos que acha na rua, as vezes eu vou com ele outras não. Meu pai diz que eu deveria ir era pra escola, mas eu não sei o que acontece que eu nunca vou para esse lugar. O que é escola?

            Minha mãe faz o melhor ovo do mundo – sinceridade – você nunca comeu o ovo que ela faz. Ela é super doce, meiga e gentil. Mesmo não tendo nada, se disponibiliza a ajudar quem tem menos que a gente. É disso que eu gosto na minha família, somos tão bons, mas tão bons que eu não reclamo um dia se quer de ser pobre, de não comer bem e nem de não ter um cachorro.

            Uma vez estava andando na rua a procura de engradados de refrigerante para vender com meu pai, quando vi uma cena que me impressionou muito. Um menino brigava com seu pai e falava umas palavras difíceis que eu por tolo que sou não entendia. Falava em videogame, CDs, rádio, televisão, futebol depois da escola, curso de inglês, entre outros nomes muito mais difíceis. Intrigado, fingi que procurava entre os lixos perto de seu redor garrafas enquanto escutava a longa história. Foi triste. Foi dura. O que aquele menino tanto esperava a vida? Ele já tinha tudo? Será?

            Cheguei a casa, contei a história para meus pais. Eles me olharam carinhosamente e disseram-me que objetos materiais, ilusões passageiras, não compram o amor, não doam felicidade. Foi quando eu entendi, ou acho que entendi. Por ora estava de bom tamanho para concluir meu texto.

            Engraçado, porque eu não sei o que escola, não sei o que é cama, não sei o que é inglês. Gosto de futebol, mas não tenho bola. Gosto de novela, mas não tenho televisão. Gosto de biscoito – gosto muito de biscoito! –, mas só como um pedaçinho quando encontro. Não sei o que é videogame. Não sei o que é CD e até prefiro assim. Por não conhecer as coisas que não tenho, sofro menos, acho melhor.

            Contudo, acredito que aquele menino por mais que tivesse tudo – até um cachorro –, ele não tinha coração. Ele era triste, bem triste. Faltava alguma coisa que dinheiro nenhum compra. Eu por simples que sou, sendo humilde e pobre, tenho tudo, tudo o que é necessário: eu tenho amor, eu tenho carinho. Eu tenho uma família que agradeço todos os dias por ter. Quem sabe um dia, eu não ensine àquele menino a agradecer por tudo o que ele tem e talvez – em algum instante – ele se depare com todo o amor – todo o simples amor – que é necessário viver.

            Mas voltando ao meu problema, que não é maior nem menos que nenhum outro problema do mundo… Tem alguém aí?

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