Opostos que NÃO se atraem

Quando me apaixonei por você pensava que não se importaria com minha visível falta de coordenação motora, ou minha lerdeza em achar palavras difíceis no dicionário chique. Acreditava que meu carinho e respeito com todos, era aceito por você e admirado. Tola fui eu, em achar que você trocaria seu mundo de bonecas de porcelana, um castelo com um cavalo e um quarto incrível, por uma realidade confusa e conturbada. Onde o cardápio do dia seria carne e batata frita. Trocaríamos juras de amor, mas eu não teria tranças para jogar e você subir em meus cabelos, faríamos isso na nada confortável cisterna aqui de casa. Na realidade que descrevo você não precisaria lutar contra um dragão, mas com certeza enfrentaria a fera do meu pai com seu cinto. Ele não cuspiria fogo, mas aos berros gritaria: “JÁ SÃO NOVE HORAS DA NOITE. DESPEÇA-SE. AMANHA VOCÊ TEM AULA!”. Eu não teria um sapatinho de cristal para perder, mas teria um celular que não me importaria se achasse e lesse o nome carinhoso que pus para você em minha agenda telefônica. Essa realidade se baseia em uma cinderela que não teria seu momento princesa. Ela seria uma eterna gata borralheira. Contudo você por ser um príncipe não se interessaria, não veria nela a princesa da sua vida.

            Seu conto de fadas e eu estamos separados por um vidro chamado realidade. Meus pés estão grudados no chão, pois já voei muito, me arrependi e preferi comprar uma super cola e grudá-los aqui, onde ninguém pode me arrancar. Como já disse eu não sou uma princesa e não vivo em castelo. Eu moro em uma casa grande por sinal, onde grande parte da mesma nunca visitara, mas ela não é um castelo. Se quiser saber detalhes pergunte a água que por duas vezes já a invadiu por completo. Eu não possuo um vestido de gala para quando você me convidar para ir ao baile da sua família, minhas roupas são modestas e às vezes eu durmo com a mesma roupa que irei para natação no dia seguinte. Nunca comi caviar, nem lagosta, o mais perto que cheguei a um animal do mar fora na Páscoa, quando caçava camarões, por sinal minúsculos, comprados na feira aqui perto de casa.

            Temos visões de mundos diferentes. Sua visão é da realeza, enquanto a minha é guardar dinheiro para comer aquele joelho de mortadela maravilhoso que tem na padaria aqui perto. Seu objetivo é tomar posse de tudo que é seu por direito, ficar no lugar de seu pai e reinar pelo mundo a fora. O meu é terminar o médio, passar para a faculdade e me tornar pelo menos metade da mulher que fora minha mãe. Seus filhos serão príncipes, os meus, serão apenas moleques, que vão querer jogar futebol, torcerão pelo Botafogo e quebrarão muitos vidros por ai, me dando dor de cabeça pela casa inteira.

            Então vá, ache a sua princesa de contos de fadas, porque a única coisa que eu poderia lhe dar, seria uma camisa suja de ketchup, um vomito depois de nosso mais caro passeio na montanha russa, um bombom para comemorar o dia dos namorados, ou uma palavra de consolo quando estivesse triste. São realidades diferentes, opostos que não se atraem, por mais que sejam almas gêmeas. Às vezes o amor não é tudo. Por ora quem sabe não ficamos juntos em algum sonho… alguma noite dessas.

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