Do coração à prateleira

Ela acaba de nascer. Linda como todo bebe é. Magricela, aparentemente saudável. Rosinha, gordinha, mas nada disso importa. Será que ela se chamará alegria ou felicidade? Será ela um presente de Deus ou simplesmente uma obra nova? Nascera. Vinda de um amor infinito de seus pais, amor puro e concreto, amor real. Contudo, esta linda menina mal sabe o que a espera no decorrer de sua vida.

Um ano: primeira festa, primeiro bolo de verdade. Sua mãe a enfeita toda de Cinderela, faz a festa mais linda que possa existir no mundo inteiro. Os convidados começam a chegar; a maioria parentes, amigos de seus pais, amiguinhos que são filhos de conhecidos de seus pais. Seus amigos? Não espere, esta linda menina tem apenas um ano, deixem-na acreditar no que ela quiser. A euforia de abrir seus presentes e ver o que ganhara para poder brincar do dias seguinte. Ela só sabia dançar, uma dança desengonçada, cheia de erros e tropeços, mas todos estavam alegres e felizes olhando para a menina como se fosse a dança mais linda de mundo, olhavam de algo que não sei bem o que é.

Mas que menina atrapalhada, seu dia a dia é sempre o mesmo. Ela brinca com os bonecos que ganhara, com todos os brinquedos.  Um jeito simples e egocêntrico de brincar, mas lá estava ela, sorridente. Que menina linda, mas sabe o que a espera no decorrer da vida.

Seus dois, três e quatro anos são parecidos. Mais festas, mais presentes e mais danças. Ela entra na creche, depois na escolinha. Aprende a mexer na machinha, faz montinhos de carne e brinca de comidinha com as colegas da escola. Ela aprende a desenhar rápido, e logo ensinar táticas para deixar o desenho das amigas mais coloridos e bonitos. Mas o que eu não entendo é que daqueles desenhos só saem rabiscos, como pode a professora aceitar desenhos como aqueles? Para mim não servem para nada. Que menina mais estranha, o que faz dela tão especial com a idade dela?

E quando esta menina chega a casa, ela pega seu desenho, mostra a sua mãe e vai brincar com seus brinquedos, imaginando qual será a façanha de hoje. Que tal a princesa ser raptada por um macaco super louco; ou o Ken e a Barbie ficarão juntos e darão beijos de cinema; ou seus ursinhos irão navegar no oceano que é sua piscina e ficarão presos em uma ilha deserta e o cachorrinho ira salvá-los. Mas chove lá fora, ela ficará em casa, só a resta a ela, ver desenho ao lado de seus melhores amigos.

Aos cinco e seis anos ela já desenha melhor, mas começa a ter medo de dormir em seu quarto, sozinha, e pedi a sua mãe que atenciosamente deixe-a dormir com ela apenas aquela noite, que na próxima ela dormirá sozinha, sua mãe permite e ela dorme hoje, amanha e depois, depois, depois… Tira fotos e diz que será sua ultima noite ao lado dos pais. Ela agora é a menina sapeca. Aprendi a ler, muito dificilmente começa a escrever. Ela agora tem amigos, com quem já anda há uns dois anos, mas não se esquece dos seus melhores amigos, seus brinquedos. Agora eles dormem juntos, cobrindo a todos, com medo de algum sentir frio à noite e por mais que esteja desconfortável à noite e amanheça resfriada pelo excesso de pelos em seu nariz, ela não se importa. Ela é alegre, pena que não sabe o que acontecerá no decorrer de sua vida.

Quando alcança os sete e oito anos, está menina muda um pouco. Não sei por que. Vivia tão bem sua vida e eu já estava até me acostumando com a idéia dela ser assim para sempre. Mas o tempo não quis, ela quis mudar, ela mudou, ela cresceu, mas eu ainda não sei por quê. Menina doce e gentil, hoje já sabe ler fluentemente, tem alguns erros na ortografia, mas nada que não melhore. Vai para escola acompanhada de seu pai, seu super herói. Seus desenhos favoritos foram substituídos por outros, com mais ação e aventura. Seus ursinhos foram para a prateleira e quem rege agora suas brincadeiras são suas bonecas. Brinca de casinha, casamento, festa, faz desfiles de moda, já não brinca mais sozinha, não tem mais graça, agora tem que partilhar sua imaginação com outras meninas, ela só não sabe o que a sua imaginação fará com ela mais a frente. Menina diferente, mas de vez em quando ainda junta seus bonecos e os põem a dormir ao seu lado, todos cobertos, todos confortáveis, menos ela, mas quem disse que ela se importava? Menina linda, mal sabe o que o tempo fará com ela.

Três anos se passam, ela atinge os onze anos, e posso dizer que não mudara grande coisa nesses três anos. Ela continua linda, continua meiga e carinhosa. Conhece uma inteligência herdada e se da muito bem na escola. Sua festa agora são bolinhos e parabéns bem simples, não ganha mais brinquedos de presente. Ao invés disto, ganha roupas, mas não desfilará com suas amigas, é para sair com seus pais. Suas bonecas desaparecem do saco onde sempre as guardava, pois sempre brincava com elas. Estas bonecas, estes ursinhos, pairam na estante, visíveis e facilmente encontrados. Mas a menina não tem mais a intenção de brincar com eles. O que a interessa agora é o telefone, seu melhor amigo; esmaltes da cor da moda; fofocas do colégio; roupas belas; provas bimestrais. Ela não tem mais tempo e o tempo a fez perder vontade. A menina só não sabe o que a esperará.

Agora com 13 anos ela realmente não é a menina que rebolava ate o chão com um ano, rasgava os presentes com o dente, desenhava espantosamente na folha em branco. Ela não é aquela menina, mas é a mesma. O tempo a mudou, como faz com todos, mas ela agora com treze, continua a viver a vida como se ainda fosse algo mágico, novo. Nunca antes experimentado por ninguém no seu convívio. Uma menina que está mudada. Poderia parar minha história aqui sem nada mais dizer. A garotinha linda do começo da história desapareceu? Não, algo me diz que ela ainda aparecerá para nós, por mais que pensemos que quanto mais o tempo passa mais a menina cresce e mais muda. Ela tem apenas treze anos e ainda não sabe o que a espera.

São agora quinze anos de vida e sinceramente não sei mais o que dizer sobre a nossa menina. Aquela a qual acompanhamos não passa nem perto da que avisto hoje. Aquela singela menina, hoje é uma mulher formada. Antes rasgava presentes com os dentes, hoje dificilmente recebe um. Quando antes dançava ate o chão para seus familiares, agora tenta tornasse imperceptível a fim de não levantar alarde e ser motivo para risos. Uma menina que se tornou irreconhecível, não que tenha se tornado má, claro que não, continua um doce, contudo esta é culpa do tempo e das vontades. A verdade é que ela teve que crescer, teve que se virar na vida e infelizmente seus bonecos não puderam acompanhar. Mesmo com dezesseis anos, mesmo com tantos dilemas a enfrentar, mesmo sua vida não podendo ser comparada com sua infância, ela é a mesma menina, a mesma criança que perceberá hoje que crescer é – infelizmente – necessário, não a escolhas e nem tudo que a fazia feliz antigamente, pode lhe trazer igual felicidade nos dias de hoje. Contudo, ela ainda é a menina de muitas pessoas a suas voltas e por mais que ela cresça nada mudará, pois ela continuará sendo a bebe rosinha que nasceu linda como todo bebe; que dançou com seu vestido de cinderela e arrancou sorrisos de sua família; que fez macinha na escola e cantou cantigas felizes com suas amigas que não acertavam uma só nota; que dormia agarrada com seus ursinhos e por mais desconfortável que estivesse ela não ligava; que dormia ao lado de sua mãe com medo de escuro; que brinca com seus ursinhos, mas depois de algum tempo os põe na prateleira. A mesma menina, fases, escolhas, às vezes na vida, parar em uma estação não é o certo, é muito melhor continuar o caminho, deparar-se com outras escolhas e lembrar feliz de tudo o que já viveu. Em quanto aos brinquedos? Sempre haverá algum espaço para eles em sua cama, em seu armário, em sua vida, em seu coração. Porque a menina cresceu, mas seu coração ainda é o mesmo.

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