Deslizar de corações

            Estava frio lá fora e todas as vezes que ela batia a porta na esperança dele abri-la, ele negava e nada fazia, nem lhe serviu um pouco de chá. Já se passaram vinte minutos e parece que para ele, ela nunca fizera falta. A menina já perdera a força e não mais se lembra de como é bater a porta, gritar seu nome ou levantar e seguir sua vida. Estava tão frio lá fora, ela estava tremendo e ele não escutava o trincar de seus dentes.

            Agora – neste momento – ela cai. Vai descendo devagar porta abaixo, como se suas roupas molhadas fossem a chave para o seu deslizar na madeira que escorria em contato com a água. Por um momento sentiu-se um pouco mais quente, por hora, digo. Ela não sabia, mas ele estava também a escorregar pelo outro lado da porta, com a cabeça encostada na mesma e com uma respiração que somente não era maior que o trincar de dentes da menina. Conectados por uma porta, um sem saber onde e como o outro estava. Unidos ou separados? Ela já terá ido embora? Ele realmente a esqueceu? Duvidas que cessaram após a primeira frase solta vinda do lado frio da porta. Era a menina.

            – Eu preciso de você. – disse ela.

            Meio assustado, com medo de abrir a porta. Receoso ele se opõem.

            – Julgar… – diz ele.

            Entre espirros, pausas prolongadas e dificuldade de respiração, ela não se poupa em responder nenhuma palavra dita pelo menino.

            – A ultima coisa… que eu faria na minha… vida, seria te… julgar. Não há motivos… acredite por favor. Preciso de… você. Preciso de suas… palavras. Como fora desde a primeira… vez. – diz a menina com os dentes mais trincados ainda.

            Alguns minutos se passam, nota-se a falta de palavras soltas deixada por ele. Sem atitudes. Mas mesmo assim ele diz o que sente, no momento em que sente.

            – Eu ainda não te esqueci. Ainda penso em voltar, em te aquecer novamente. Eu te proteger. Andar com você. Mas eu estou perdido em meu próprio caminho. Por onde andas? Não seu corpo, mas sua alma? – questiona ele, possivelmente com o coração na mão neste momento.

            – Procure pelos meus olhos, aqueles que um dia você disse ser de uma sinceridade inquestionável. Eu me lembro. Algo mudou? Preciso acreditar que não. Vamos, venha olhar em meus olhos, veja como eles ainda brilham um pouco embaçados pela nuvem de lágrimas, mas eles ainda estão aqui. – Ela responde, já sem medo, sem frio, sem temor. Com coragem. Uma coragem que ela já possuíra a muito tempo, mas que fora guardado. Por isso ela retruca, rebate. Imediatamente, já virando seu corpo, pondo-se de joelhos e encostando ainda mais na porta de madeira, já tomada pela água de sua roupa. Desta maneira é que ele espera a próxima palavra que vira do outro lado, do lado quente.

            Ele por sua vez, não consegue evitar as perguntas. Não abre a porta imediatamente e diz o que quer de frente a ela. Ele busca motivos para não abri-la, para não amá-la. Ele estava travando uma luta com seu coração. E no meio desta luta, ele dizia:

            – Mas e a minha felicidade? Diga-me, onde está? –  diz ele, meio temeroso com a resposta.

            Ela, por sua vez, não se abstém e rebate logo em seguida:

            – Abra a porta e você com certeza vai encontrar sua felicidade. Vamos, por que tens medo de me olhar? Se nada sentisses por mim, mandava-me ir embora logo no momento em que cheguei. Abra a porta. Vamos. Venha ver sua felicidade. A sua felicidade, se te conheço bem, é onde estais de mãos dadas com quem amas. E por falar em mãos, as minhas estão muito frias.

            – Você me deixa sem palavras. Como sempre deixou-me. – ele diz.

            – E você me deixa corada. Mas sempre soube disso. – ela responde.

            Passam-se dez minutos e a porta continua na mesma angulação que anteriormente. Fechada. Fria e quente. Para de chover. A menina então vira, apóia-se na porta e abraça suas pernas na tentativa de se aquecer. Já não há mais água que caia sobre sua cabeça que simplifique as lágrimas que continuamente saem de seus olhos. Ela pensa em levantar, mas algo a puxa para baixo. Passam-se mais cinco minutos e a rua está vazia, não há ninguém. Ela neste momento escuta algo que não esperava escutar naquela noite. Pelo menos acreditava que não mais iria escutar.

            – Eu preciso de você! – ele diz, pausadamente, mas diz. – É, eu preciso de você.

            De repente a porta de move, a maçaneta do porta se desloca e a porta finalmente é aberta. E é neste momento que põe um venda em meus olhos, puxam-me da entrada da casa e me deixam sem saber o que aconteceu. Estou atônica. Como fora o fim, o que aconteceu? Será tudo verdade? Ou meu poder de imaginação supera o de qualquer filme de ficção científica?

            O que aconteceu ali, depois do entreabrir da porta, cabe a alguém me dizer. Algum texto que conte o fim do que aconteceu. Alguém que sente ao meu lado ou a distancia mesmo, não me importa ser aos gritos, mas eu quero saber o fim. Sei que muitos segredos foram ditos, muitas alianças foram firmadas, muitos desejos matados, mas eu não pude ver através do vidro. Taparam-me os olhos e eu já não sei como será o fim. Quem assumira a narrativa agora, faça uma escrita muito bem simples, mas muito intensa, se possível.

            Se eles ficarão juntos, não serei mais eu a decidir. Minha narrativa termina quando eu disser: “Continua”. A de alguém somente terminará quando for escrito o “Fim”. Contudo, essa história tem que acabar em felizes… Para sempre.

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