Um dia das crianças diferente

Meu nome é João Felipe, tenho 11 anos e moro em alguns lugares por aí. Tenho escola, mas quase não tenho tempo de ir; trabalho muito. Na nossa “casa” somos eu, minha mãe, meu pai e a Julia, minha irmã de 5 aninhos, ela também não estuda. Eu e minha família sobrevivemos do que encontramos por aí nas ruas e também o que vendemos por esses mesmos lugares a pessoas que não valorizam o que tem.

Uma vez estava vendendo minhas balas por algumas ruas dessas aí, que ainda não sei o nome, só sei que existem, e vi um menino (parecia ter a minha idade) gritando com o pai. Era dia 12 de outubro de um ano qualquer e ele não havia ganhado o presente que ele queria. Ganhou outro, simples para ele, mas o suficiente para deixar meus olhos em tamanhos proporcionais ao brilho que eles emitiam. Era um carrinho de pilha com controle remoto. Eu nunca havia ganhado nada de pilha, muito menos com controle remoto, mas sabia que existia, não sei como. Eu queria aquele brinquedo para mim. Eu o merecia e não aquele garoto que gritava com o pai por não ser o que ele pediu. Eu, João Felipe, merecia aquele brinquedo, mais do que qualquer criança no mundo. Mas… Não o tinha.

Minha família vivia na miséria e sorte era quando meu pai conseguia juntar algo e comprar algumas latinhas de atum para nós todos (o que era um duro trabalho, praticamente impossível). Só que um dia, justamente em um dia de 12 de outubro, meu pai apareceu com dois embrulhos de jornal: deu um a Julia e outro a mim. Contudo, disse que só poderíamos abrir quando todos estivessem sentados a mesa improvisada que meu pai faria para nós. Obedecemos é claro. Quando meu pai nos chamou, fomos correndo com nossos embrulhos na mão e sentamos nas cadeiras, mal arrumadas e esperamos a largada, para rasgar aquele jornal e ver o que estava embaixo daquelas letras pequeninas. Quando finalmente meu pai deixou abrir meu embrulho, senti um forte puxão no momento em que percebi o que havia ganhado: aquele carrinho com controle remoto que o menino tinha ganhado do pai. Não estava vermelho como quando o vi pela ultima vez e os símbolos do controle mal davam para ser notados, mas quem ligava? Eu nunca tive nada comparado a isso, estar sujo, feio, velho, empoeirado… Não ligava mesmo. Me sentia digno daquele presente, era como se tudo tivesse valido apena. Mas depois de brincarmos uma hora com nossos presentes, cai em realidade de novo. A mesa era somente para os presentes, ainda não tínhamos o que comer. Foi quando senti aquele puxão de novo, só que era mais forte, pensei logo comigo “fome”. Nesse momento já havia decidido o que fazer no dia seguinte, já tinha coragem, já tinha destinatário.

No dia seguinte, fui àquela mesma rua, não sei o nome ainda, e esperei o mesmo menino abrir a porta para que pudéssemos conversar. Esperei um tempo grande e quando ele abriu o portão, o diálogo foi o seguinte:

– Você sente saudade da sua infância?  – Disse a ele

– Não, fiz uma besteira quando era criança e me arrependo até hoje. – Respondeu o menino

– O que foi que você fez?

– Joguei o presente mais bonito que já havia ganhado de meu pai fora e depois de um tempo ele faleceu e não tenho nenhuma recordação dele.

Escutando essas palavras eu sabia que realmente havia uma força muito grande me fazendo concretizar isso. Por isso continuei:

– Eu sei o que você jogou fora a um tempo, na época que você jogou fora eu havia visto você ganhando o presente do seu pai e tenho que dizer que queria muito estar no seu lugar. Passou-se um tempo e ontem eu ganhei um presente do meu pai. – Enquanto abria a sacola onde estava o carrinho continuei falando. – Eu fiquei tão feliz com o presente que ganhei que senti um enorme puxão na minha barriga e coração, mais forte do que no dia em que desejei seu brinquedo para mim. Foi aí que lembrei que eu e minha família não tínhamos o que comer e decidi vir aqui para devolver seu brinquedo, sabia que você precisava mais que eu. Sabia que alguém estava me mandando aqui para devolver algo que está vazio dentro do seu coração.

O garoto me olhou com os mesmos olhos que talvez eu tivesse olhado para o seu brinquedo e mentindo eu estaria se dissesse que não estava com vontade de sair correndo dali sem que ele pudesse me alcançar. Só que alguma coisa me mantinha ali, mas não sei o que era. Estendi o brinquedo para ele, e enquanto pegava-o, ele só conseguiu dizer duas palavras, meio baixas.

– Muito obrigada.

Dei o brinquedo para ele, dei um sorriso, me virei e comecei a andar. Estava sentindo uma sensação estranha dentro de mim, de trabalho feito com angustia. Eu queria aquele brinquedo mais que tudo, só que de nada adiantava eu estar feliz com alguma coisa minha e olhar para os meus pais se alimentando da minha alegria, mas sem nada na mesa para comer. Por isso que fui devolvê-lo. Nesse momento enquanto pensava comigo escutei o menino gritar e começar a correr em minha direção, por isso parei e o esperei. Então ele disse:

– Tome esse carrinho para você, porque sei que era o que meu pai queria que eu fizesse. Nesses anos todos que passei sem meu pai, aprendi a dar valor as coisas, contudo aprendi ainda mais a dar valor as pessoas. Por isso fique com ele e venha na minha casa, vou pedir para minha mãe fazer um belo almoço para nós dois e depois leve um prato para seus pais. Por favor, faça isso por mim. Alguém mandou você aqui para concertar o meu coração, é o mínimo que posso fazer por você. Você fez tudo por mim. – Disse ele em meio às lágrimas.

E lá fui eu. Sentei em uma mesa de verdade, comi uma comida de verdade e enchi três pratos com as melhores comidas que pude juntar. Coloquei o meu carrinho no braço, agora ele era meu e fui para casa, chorando. Contei tudo para os meus pais que também choraram e depois brinquei com a Julia a tarde inteira.

Era dia 12 de outubro, muitos dizem ser dia das crianças, mas para mim é muito mais do que isso. É o meu dia e eu sei que existe Alguém, aqui do meu lado que me fez feliz hoje e é a Ele que eu agradecerei sempre.

Anúncios

2 comentários sobre “Um dia das crianças diferente

  1. joaquina gomes disse:

    Que continues sempre a escrever assim… e que com tuas palavras consigas tocar os corações das pessoas. Que Deus te ilumine sempre, e assim será. Te amo Quina.

O que achou do texto?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s