Aos fantasmas do passado

Aos fantasmas do passado

Descobriram-me os pés, moço. Vi voando distante, minha alma criança e senti pela primeira vez medo. Não desejo ter meus pés descobertos, não tão rápido assim, não por enquanto. Ainda é muito cedo, por isso peço com a delicadeza que só me cabe, que cubra-me os pés novamente. Não desejo a aventura de crescer, esta vestimenta nunca me coube bem. Isto talvez seja demais para mim. Sendo assim, moço, volto a pedir que cubra meus pés, como eu fazia quando pequena. Não sinto mais medo do escuro, tão pouco sinto-me desconfortável quando o vento me faz cócegas e talvez seja isto que esteja me apavorando. Não, não estou crescendo se é isto que está pensando, mas devo admitir que as vezes me falte paciência para enfileiras minhas bonecas na estante pela manhã e rente a minha cama a noite, para que assim me vejam dormir, mas moço, por favor, finja que nada disso acontece e cubra meus pés. Não me deixe esquecer os fantasmas – “o” fantasma na realidade – que apertou-me os pés quando pequena e me fez desde então nunca deixá-los descobertos. Sim, os fantasmas, eles ainda existem moço, o senhor não costuma os ver? Não?

Tudo bem, vamos imaginar que tudo não tenha passado de um mal entendido e que na realidade eu não veja mais necessidade em cobrir os pés todas as noites. Se for assim, sinceramente, continuarei avessa a este vento que teima em soprar todas as noites em meus pés. Por isso não vou mudar, e desta forma, sozinha e sem sua ajuda, vou cobri-los. Prefiro permanecer nesta nostalgia a constatar que já não possuo espaço para enfileiras minhas bonecas na estante; que meus ursos estão amontoados no sótão, cheios de poeira e possivelmente com uma baita crise alérgica e que meus fantasmas agora são outros e não dão-me sustos apenas nos pés. Por que se constatasse isso, estaria simplesmente admitindo que cresci: que perdi minhas bonecas em alguma caixa, que minhas estantes agora carregam o peso de mais de cinquenta livros, que as vezes durmo sem cobertor e talvez meus ursos realmente estejam com uma baita crise alérgica.

Pois bem, quantas vezes o senhor indagar, quantas mentirei. Não, não cresci. E se para isso precisar ser chamada de louca, insana ou qualquer outro adjetivo que a madrugada não me deixa lembrar, que assim seja. Ora, moço, quem mais escreveria um texto assim? […] Portanto se ficou com resposta, caro amigo, cubra-me os pés novamente, ou deixe que eu os cubra sozinha, assim volto a acreditar… E se quiser, levo-te junto, nesta aventura… Reservada para poucos, mas para os melhores, creio eu.

Mariana Cassiano

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