Senhorinha

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O bem senhores, está nas pequenas e solitárias coisas.

Atrasado. Mais um dia onde as tarefas sobrevoam o tempo cronológico. Disponho de 24 horas por dia, onde minhas atividades, para serem realizadas de forma completa, necessito de pelo menos mais 5 horas agregadas a este tempo me fornecido. Contudo, isto não vem ao caso. Eram, se bem me lembro, 10h05min da manhã, quando a encontrei, no ônibus. Uma senhorinha miúda, franzina, mirrada. Não a conhecia, não mesmo, de jeito algum. Mudando o lado, a senhora me conhecia. Ou achava que me conhecia. Ou sei lá. Lembram que eu estava atrasado? Esqueci deste detalhe por 5 segundos. Olhei para a senhorinha, ela sorriu, aquele sorriso meio congelado, inerte, onde não se veem os dentes, onde se sorri com os olhos. E ela sorriu assim para mim. Não me contive:

– Senhora, eu te desço. – Disse.

– Ah, obrigado meu querido. Quanto tempo não te vejo. Como está o seu amigo? – Respondeu-me com a naturalidade, que naturavelmente me faltava. Quando me viu? Que amigo seria este? Enquanto essa pergunta disparava em minha cabeça, meus olhos porém estavam sendo contagiados por outro vislumbre: aqueles olhinhos. Caídos, devo frisar. Deveriam ser olhados com muita atenção. Reparava, um pouco discretamente, enquanto imaginava por quantas aventuras aquele corpo frígido passou e  quantas cenas triste aqueles olhos presenciaram. Ajudei-a a descer. Mas estava esquecendo alguma coisa, enquanto fazia minha próxima pergunta a ela…

– A senhora vai aonde? – E ao receber como resposta um “Vou à farmácia popular, meu filho”; rebati, ainda sem pensar, o que poderia atrasar totalmente meus planos do dia.

– Levarei a senhora até lá. – Disse. E com toda maestria que poderia me dirigir com ela, fui caminhando a passos lentos, desconhecidos por mim. Eu que passava correndo pela vida, fui obrigado a diminuir a velocidade, retardar e passar a admirar. Não que me fosse estranho, somente era desconhecido, inoperante. Não dava tempo. Nunca deu. Mas agora no literal “devagar devagarinho”, posso pelo menos descansar enquanto assimilo as pouquíssimas palavras que entendo da minha senhorinha, que com as unhas afiadas, pressionava-as sobre minha pele, não ao ponto de machucar, mas totalmente dependente de mim. Aquilo me fazia um bem enorme, mesmo estando, provavelmente atrasado. Não me importava mais.

Chegamos à farmácia e aquelas mãos geladas e depositadas me pareciam não querer sair do meu ombro. Ela deixou todos os seus documentos em minhas mãos, como se eu, apenas um acompanhante de senhorinhas, fosse de total confiança, ao ponto de depositar todas as suas necessidades rente as minhas mãos. Abri seus documentos, olhei identidade, carteirinha de idoso, mas não li seu nome. E até hoje me faço esta pergunta. Portanto, ela era minha senhorinha. E só.

Pegamos sua senha. Ela sentou-se, tranquilamente, e pôs-se a brincar com um bebê que estava a seu lado. Será que a ele também conhecia? Enquanto isso, estava eu de pé, precisava alguém comandar a situação, mesmo que nada soubesse a respeito da mesma, tão pouco como deveria proceder para a conclusão da minha aventura. Chamaram-na. A alertei e fui com a mesma até o balcão para que fossemos atendidas. Chamei-a de senhora, e os outros clientes olhavam-me, meio lateralmente como censurando-me por me dirigir a ela assim. Deveriam estar pensando porque não a chamava de “vó”, “tia”, ou “mãe”. Não poderia explicar, poderiam não entender. Olhei para frente e segui com o meu objetivo. A moça do caixa, disse-me para sentar a senhorinha, como iria demorar, eu poderia esperar por ela. Fiz o que me fora mandado.

– Sente-se senhorinha, ainda vão buscar seus remédios. – Meio envergonhada e cabisbaixa acompanhava-a nesta trajetória, do balcão a cadeira. Até que em certo momento, ela me chamou e pediu para que a levasse para se pesar. Fiz o que me fora mandando, novamente. Andei, a passou lentos e curtos, com a mesma até a balança. Pesou-se. 40,65 quilos. Entendem agora meu excesso de palavras na tentativa de definir sua notável magreza? Pois bem, pouco depois de fazermos o caminho de volta à cadeira, a moça me chamou, pedindo-me para anotar o endereço da senhorinha e o telefone.

– Não sei, moça. Não conheço essa senhora. A senhora pode não acreditar, mas a encontrei no ônibus, enquanto atravessava a rua, agarrou-me o braço e agora estou aqui. Mas não a conheço. – Disse, meio confusa, meio trocando as palavras, meio sem justificativa, meio em meios. Estava ali com ela, porque era assim para ser. Não há outra explicação.  E voltando-me para minha senhorinha, com papel e caneta, a indaguei, perguntando-lhe se poderia me dizer o nome de sua rua e seu telefone. Ela por outro lado, apenas disse que não sabia, e começou a vasculhar seu saquinho com folhas avulsas, quando me aparece com uma toda dobradinha contendo as informações que precisava. Anotei-as, sem ainda acreditar muito, e perguntei se a mesma poderia escrever seu nome da receita, pois a moça do caixa necessitava.

-Não sei escrever não senhora. – Respondeu-me. Paralisei. Como? Como seria isso possível? Levantei, passei os informes a atendente que me orientou a trazer a senhora a bancada para que fosse coletada sua digital. Assim o fiz. Sempre obediente ao que me mandavam fazer. Cheguei ao ponto de limpar a mão da senhorinha, toda sua de preto, sujando-lhe os dedos, a roupa, a unha. Mas que depressa arranquei uma folha de meu caderno e lá estava eu a limpá-la.

Retiramos os remédios, ela ficou ciente de quando deveria retornar a farmácia e eu me vi fechando mais um estranho momento da minha vida. Isto, devo frisar, antes que fosse acalentado com palavras tão doces de minha senhorinha, que sim, é minha.

Oh, meu menino, meus sobrinhos disseram-me que não poderia sair de casa sozinha, pois não sabia onde era a farmácia e nem o que deveria fazer. Mas bati o pé e disse que iria sim. Eu iria encontrar um anjo.

Coração estremeceu. Os pelos do braço, perna e cabelo subiram. O que dizer depois disso? Coloquei-a em meus braços, apertada, levei-a até o ponto de ônibus novamente. Não estava mais atrasado. Não existe mais tempo. O tempo era ali, agora, pronto e operante para fazer o bem, sem olhar a quem. Não fui eu quem ajudou aquela senhorinha, foi ela. Ela mesmo, que me fez entender o real tempo das coisas.

O bem senhores, está nas pequenas e solitárias coisas. Somos anjos, somos todos anjos de alguém.

Mariana Cassiano

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4 comentários sobre “Senhorinha

  1. Fátima disse:

    Filha só você para escrever um texto como este! Você escreve muito. Parabéns, você só me dá orgulho, lembre-se disso e que estarei sempre ao teu lado como mãe e amiga. Bjs. Te amo muito!Da sua mãe Fatima.

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