Ditoso

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Segue linha, métrica, fluidez. Compassado como a melhor harmonia já ouvida. Tem face de menina, pele branca ou desbotada, depende do grau de sua idade, com manchas de café. É altamente cortês. Sua simbologia é de caráter elogiável, sempre a nos dizer algo. Padronizável, incrível, clichê. Não se advinha, se observa. Meramente contemplativo. Seus pontos estão presos certamente em um plano cartesiano, que obedecem ordenadas e abcissas, formando um mundo bidimensional. Mas olhe bem, não se engane. Não se acostume. Não é sempre assim. Quando teima em sair dos eixos, não há sonoridade poética que o represente. Desafina, descompõe, descompassa. Foge à etiqueta, rasga a tapeçaria persa, corre até o monte Fugi. Fica literalmente difícil de se engolir. Furacões, tempestades, choques. Qualquer coisa que fuja da realidade ou que se transfigure pode ser relacionado. Linhas retas sobem morros, descem morros, pulam abismos, picos e cumes. Já não avista mais o horizonte por tê-lo simplesmente transformado em ponto e não em segmento. As dores de cabeça frequentes dão a sensação que Golias tende a pisá-lo a todo instante. Cortou o cabelo de Sansão. Atirou a flecha que acertou nos pés de Aquiles. Fora culpado pelo naufrágio do Titanic. E mais culpado ainda por ter sido o próprio a afirmar mais de uma vez a Jack que aquela porta não suportaria dois corpos. Seus surtos psicológicos foram os que ocasionaram a queda das Torres Gêmeas: ainda escuto o intenso soco dado na parede. Atlântida ficou com medo de seu grito e por isto afundou para nunca mais ser vista. Super heróis esvaíram-se do Planeta, por não terem forças para destruir tamanha aberração. Até mesmo a Kriptonita apagou. Até o escuro tem medo. Até a solidão trata de arrumar um acompanhante. Até o “até” disse “até mais ver”.  Mas não, não é um mito, nem um bicho de sete cabeças.

É somente a palavra, a ecoar melodiosa e barulhenta. Trepidante e contemplativa. Tão próxima e indiferente. Linear e hiperbólica. Intensa e marola. Desbravadora e quieta. Obscura e iluminada. Apenas palavras. Estas mesmas, tolas e inquietas, que teimam em sair de meus dedos, sem nem menos pedir licença. Teimosas palavras, um dia deixar-me-ão insana, ou eu a elas.

Mariana Cassiano

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