Vidros estalados

tumblr_l8j9wrbq7n1qb5d33o1_500_largeSobre a Nostalgia, venho lembrar-lhe que esta recai sobre minhas folhas de papel quase todos os momentos de minha escrita tão insegura e rara. Ela se encontra nos passos que dou pelas calçadas antigas, nas roupas que já não cabem mais, nos sorrisos distantes, nos conhecidos que hoje passam por mim e dizem “olá como vai a sua vida?” e antes paravam-me, cansados e ofegantes para contar como haviam se divertido na noite anterior. Ah, Nostalgia, tens nome de mulher, arrisco um palpite ao dizer que deves ser tão chata e implicante quanto uma. Imagino-te figurativamente: alta, pele macia, cabelos ruivos, sorriso de canto de boca. Pernas finas, saia acima do joelho, uma mulher comum até agora, mas seus olhares a diferenciariam completamente de uma mulher comum. Olhar de estrangeira ao hipnotizar sua próxima vítima, ao se materializar frente ao seu homem, a se doar. Querida Nostalgia, velha amiga que se debruça na janela da sala para contar as novidades já tão antigas, mas tão queridas. Você mesma, que imita tão bem o barulho dos pássaros e o ressoar do vento, como se eles também tivessem algo para me relembrar… Talvez alguns passos dados em falso, talvez algum olhar triste demais. Talvez a minha antiga calma ao passear pelo jardim da casa tenha se perdido em algum livro, em alguma conta para pagar. Talvez minha paz, minha tranquilidade tenha sido esquecida e só lembrada como um lugar empoeirado que deve ser limpo todos os sábados, impreterivelmente, todos os sábados. Nostalgia, porque não vens para ficar? Porque somente invades meus pensamentos e me faz sentir tremenda saudade daquilo que vivi tão simploriamente. Porque me mostras a todo momento que crescer é inútil, que a beleza já se fora a outrora e fui a única que não percebi quantas chances tive? Ah, bela Nostalgia, agora caminhas comigo neste apressar de lições, perguntas, obrigações. Agora andas depressa demais para tentar me acompanhar. O tempo em que paras para respirar e beber um pouco de mim, por puro cansaço, é somente com o intuito de me recordar o que tão facilmente esqueci. Desculpe-me Nostalgia, mas é que o tempo passa  e se não andarmos depressa ele leva tudo o que não nos foi permitido terminar.

Perdoe-me Nostalgia, mas no momento não tenho muita certeza de quem eu seja, quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (…) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas mas não posso explicar a mim mesma…

Mariana Cassiano

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