Canção do exílio

Vem me fazer feliz.Vem curtir meu Carnaval. Pensa que não sinto esta bolha que colocou-me, contra minha vontade, por sinal? E eu sempre permiti, sempre deixei. Covarde, com medo do Verão, do Sol. A porta abriu trinta vezes, desde que deitei nesta cama e em nenhuma delas tive coragem de levantar. Novamente eu digo, covarde. Displicente. A vida é minha e a entreguei de bandeja ao marasmo, ao aceitável, ao passível. Ao natural. Deixei que decidissem por mim, que vivessem por mim, que fossem e escolhessem por mim. Disseram que era ruim, comentaram que não valia a pena: mas eu não vi, não opinei, só acatei. E, querido, acatar é tão passional. Tão, literalmente, “chocho”. Não quiseram saber se gostava de multidão, se desejava dançar. Não perguntaram se os pés ansiavam pular, comemorar. Se quer importaram-se em saber se eu desejava voar. E olha, eu amo voar. Você não tem ideia do quanto me fascina possuir a vida dos pássaros. Mas fizeram-me ter medo. Deixaram-me com pavor. Pavor do que eu mais amava/amo: pessoas. Fizeram-me tornar uma pessoa simples (coisa que nunca quis ser, coisa que não combina comigo). Tornaram-me gelo. Jogaram seus medos em mim e viveram como se eu devesse aceitá-los sem jamais questionar.

Eu só queria sentir essa liberdade que nunca me foi proporcionada. Só desejava saber como é. Sair porta a fora por uma vez só, eu prometo. Se fosse ruim, fosse cruel, nunca mais pediria nada. Confiaria. E amarraria minha saia à barra da saia de quem me mandasse amarrar. Veja bem que não reclamo, só ambiciono, somente cobiço. Só desejava jogar o lenço pelo ar e fazer com que ele voasse e logo depois, voaria eu. Soltaria os cabelos, desamarraria as sandálias e dançaria: fosse na chuva, fosse no calor de rachar. Sentiria pela primeira vez o que nunca me foi dado o direito de experimentar. E eu tenho esse direito. Eu tenho, e ainda sim, continuo com essa falta de coragem, que me impede de ver o Sol nascer mais claro. Que me impede de ver a vida com mais confete e serpentina.

Só queria por uma vez ver quem eu realmente sinto que gosto de ser.

Deixem-me, por favor.

Mariana Cassiano

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