Algumas lembranças

O amor para mim é acordar de manhã cedo e ter o café da manhã preparado pela mamãe. É quando meu papai me leva para brincar no quintal, mesmo eu não sabendo o que estou fazendo. Vocês não devem imaginar, mas o sorriso que ele dá quando eu chuto um negócio bem macio para algum canto do quintal é incrível. Não é um sorriso normal, como o que eu dou quando tem café de manhã me esperando, é um sorriso diferente. Como se eu estivesse fazendo a coisa mais extraordinária do mundo: mas eu só chutei aquele negócio. O amor pra mim é fazer dodói e a mamãe passar remédio assoprando – a dor não passa, não passa mesmo -, mas ela faz com tanto jeitinho que eu até engulo a dor e finjo que passou, porque no final, passa.

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O amor para mim é quando a Ana, a menina mais linda da escola olha para mim e pergunta se eu preciso de ajuda em Português – porque eu sou péssimo em Português -. É quando ela fica depois do horário, enquanto espera a sua mãe chegar do trabalho, me ensinando a ler direito as histórias que os professores passam como dever de casa. Amor para mim é esperar todos os dias ela na entrada da escola, só para andarmos um pouco juntos, antes que ela vá para o lado das meninas fofocar sobre outros meninos, que sabem ler melhor do que eu… Queria saber ler melhor, porque se eu soubesse ler melhor, talvez a Ana falasse de mim na rodinha com suas amigas.

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O amor pra mim é uma merda. A Ana já não me ajuda com Português, ela agora só quer saber de maquiagem, meninos bonitos e interessantes e, baladas no meio da noite. Não sei nem se existe esse lance de amor, eu fazia tudo pela Ana, comprava chocolate no recreio, esperava a mãe dela chegar à escola só para fazer companhia. Eu fazia tudo. Quando ela ficava doente eu até ligava pra ela. Duvido que os meninos de que ela tanto fala, ligaram para ela. O amor, esse amor que todo mundo fala, acho que não existe.

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O amor pra mim é o que eu senti pela Angela, pela Catia, pela Marcelle, pela Vanessa, pela Vivian… Deixa-me ver… Ah pela Juliana também. Amei todas, mas já deixei de amar a muito tempo. Hoje em dia tô amando a Letícia. A Letícia é toda doce e meiga e a diferença dela para as outras é que ela me entende. Não fica pegando no meu pé, deixa eu fazer as minhas coisas em paz e tem um beijo que me deixa maluco. Beija muito a Letícia… Isso que é amor.

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O amor pra mim? Não estou com muito tempo para isso. Minha mãe me deu uma dura e disse que estou muito vagabundo esses dias (desde sempre). Ela disse que faz isso por amor, porque quer o meu bem (isso que é amor?). Tudo bem, não vou reclamar com a velha. Estou estudando para uns concursos aí e para o pré-vestibular. É passar pra faculdade ou arrumar um emprego. Quanto as meninas? Elas ainda me ligam, mas não quero nada com elas. A Letícia me traiu com um cara do time de basquete, disso não quero nem comentar. Esquece. Deixa o amor pra lá.

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O amor para mim reapareceu quando no meio da aula de comunicação e informação – ah eu contei que passei pra Letras? – me deparo com uma menina morena, com os olhos meigos e doces, que vendo minha dificuldade com os sintagmas nominais, pegou um lápis cor de rosa meio infantil e tentou me ensinar com a ponta dele o que eu deveria ter aprendido se não tivesse dormindo na aula. Ensinou com a mesma paciência que me ensinaram a anos atrás e ao levantar meu rosto – meio amarrotado pelo sono e a posição incomoda e ao mesmo tempo maravilhosa que é dormir apoiado na mesa -, me deparo com ela… A Ana. A mesma Ana que a tempos não via, que a tempos não me ajudava mais. E foi aí, sem explicar mais nenhum detalhe para vocês, que eu vi para mim o que era o amor (novamente).

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O amor para mim foi quando eu vi a mulher mais linda do mundo entrando de branco, no vestido mais lindo do mundo, pronta para passar a vida inteira ao meu lado. O amor foi ter dito sim para aquela linda e meiga menina – eterna menina – de cabelos morenos e olhos meigos, e escolher trilhar todos os caminhos possíveis e imagináveis. Foi levá-la para a suíte e desejá-la verdadeiramente, como nunca em toda a minha vida, desejei alguém. Foi tê-la em meus braços e sussurrar em seu ouvido, e chamá-la de minha, eternamente minha, para sempre minha. Foi vê-la sorrir. Sorrir de felicidade. E ser feliz.

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O amor para mim foi ver o João jogando bola no quintal lá de casa pela primeira vez. Vocês não devem imaginar, mas ele chutou a bola certinha, como se nascesse para ser jogador de futebol. A Ana ficou na cozinha colocando o café dele e já está nos chamando para comer, pois é o primeiro dia do João no pré-zinho e vamos os dois levá-lo até lá. O amor para mim é ver a paciência e carinho que a Ana tem com ele e ver como cada dia que passa ele se torna um menino mais forte, mais crescido, mais feliz. O amor para mim é amar João e Ana: minha família.

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Já se passaram muito anos e a dificuldade de escrever tornou-se imensa também, mas ainda me restam opiniões bem formuladas sobre o que é o amor para mim: foi ver João crescer e se tornar um homem; ver Ana envelhecendo ao meu lado sempre caridosa e amorosa; sair de manhã para comprar pão e leite para que pudéssemos tomar café;  namorar Ana; ver os jogos de futebol do João; passar os Natais em família; tomar sorvete na praça; andar pelo jardim do condomínio… Amar, como a vida me permitiu amar Ana até nossos últimos dias.

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Amor foi o que me manteve esses 93 anos ao lado de Ana, e que me mantêm certos de que para onde eu for, daqui a esperarei… Pois… amo… a… minha… Ana.

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Ensinei-o a ler praticamente e, em troca ele ficava comigo até tarde a espera de minha mãe, mas eu (tola que era) pensava que era para receber carona e não que a minha companhia era que realmente importava. Nunca o olhei com outros olhos, também não poderia, éramos crianças e fazíamos coisas de crianças. Crescemos e ele parou de me esperar na porta da escola, deixou de me ligar quando amanhecia doente – eu amava quando me ligava -, ele sumiu, e eu infelizmente não me importei. Passaram-se os anos e em um dia normal de aula me deparo com o mesmo menino, já crescido, diferente, bem mais encantador. Usava óculos, cabelo bagunçado – acho que por ter acabado de acordar – e com dúvidas na matéria (como sempre). Ajudei-o e diferente da primeira vez, não queria deixar de ajudar nunca mais. Sim, eu o amava. E decidi que queria amá-lo por toda a minha vida. E assim o fiz. Casamos-nos uns 5 anos depois deste dia. Tivemos o João – nosso maior tesouro – e para quem, talvez, não acredite em histórias felizes, não se garantam na nossa: vivem-na, como nós vivemos.

Hoje me despedi do meu grande amor. Mas foi somente uma breve despedida. Dissemos-nos um bonito até logo, a espera de que em algum momento da minha vida eu vá me encontrar com meu amor. Ele ensinou-me a fazer da vida um monólogo e sempre começar dizendo “o amor para mim é”…

Portanto, acredito que ele gostaria de dizer seu último monólogo, e já que tenho a liberdade que somente uma alma gêmea possui, direi que:

O amor para ele é tão breve e infinito quanto este “até logo” que demos antes de sua partida. Até logo meu querido… Até o eternamente…

Mariana Cassiano

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