Queridos antônimos

A tristeza não é um sentimento tão esquisito assim, ou demasiado desnecessário. A tristeza pode ser analisada por outro lado, outro viés. É tão somente ausência de felicidade. Um dia sem sorrisos forçados, todos aqueles paetês e floreios. Os diálogos ficam curtos e monossilábicos e as palavras duras e pontuadas. Não, não se trata de um equivoco ou um sentimento ruim. É um sentimento, ora, e como qualquer sentimento este deve ser respeitado em sua complexidade de completude. Se estivermos felizes necessitamos – sim, necessitamos – de rodeios, de sorrisos, palavras de entusiasmo e exclamações. Por outro lado, se tristes ou recatados ou quietos estivermos, carecemos pura e simplesmente de silêncio – uma parede branca repetida mais cinco vezes de forma a fechar um quadrilátero e trazer a ausência e somente esta -, mas as pessoas o confundem isto, com interrogações. Pois bem, aqui vai um conselho: não existem antônimos na vida, pelo menos não inteiramente. O mau não combina com cobra que combina com arma que combina com veneno que combina com lágrimas e antonimamente (sim, acho que acabei de inventar uma palavra) o bem está para cachorro que está para o arco-íris que esta para a água que combina com sorrisos. Lembre-se sempre palavras podem ser usadas em qualquer interjeição, meu caro. E as mesmas sempre ocultam algum desejo por trás de suas simples letras de forma “times new roman”. E aí que está o problema: tentam forçar-me a ser um Arial na tentativa de padronizar-me a uma nova estética humana; ora conduzem-me a um Monotype Corsiva para me suavizar, tornando-me delicada, compreensiva, gentil (o que está bem longe de meus padrões científicos). E quando me decido por permanecer jovem, dão-me todo o apoio afim de manter a jovialidade dizendo-me “porque não um Comic Sans” – e ainda me atrevo a rir de todos aqueles que o utilizam na cruel tentativa de ser engraçados, até porque como não rir de comic sans, ora é cômico -. Enfim, devo terminar a prosa, temo que se afogue em meio à minhas loucuras de falsa carente por atenção. Até porque não se esta sozinha no mundo quando se tem o dom de escrever. E mesmo que dom não tenha – o que me recorre em boa parte do tempo – escrevo mesmo assim. Para que nunca venha a esquecer-me do que passei, do que vivi e do que disse.

Mesmo que as palavras sumam e meus ais voem com o vento. Mesmo que amanhã eu já esteja feliz novamente. Nunca me esquecerei de que a vida é tão somente um amontoado de antônimos inúteis e que eles querem que você acredite que realmente funcionam.

Não funcionam, meu caro, nem tente.

Mariana Cassiano

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