Mentiras

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Quando digo que te escrevo digo isto do fundo do meu coração. Falo, pois não sei escrever de outra forma. Sem tamanha intensidade a qual te proponho. Sem essa entrega de palavras, sons, de ais.
Quando digo que te escrevo do fundo do coração posso estar me referindo ao mesmo fundo no qual as tais moedas mágicas (aquelas que repousam no fundo das fontes encantadas) ficam, a espera de chegar a sua vez de contar seu segredo e ver se o mesmo merece ser realizado ou não. Poderá pensar em outros milhares de fundos, ou você nunca se deparou com o fundo do seu sorvete ou doce favorito, ou o fundo do poço que algum senhor usava antes que a seca lhe afetasse e ele perdesse toda a sua água?
Contudo, não pense você que só existem esses fundos. Que terminam, cessam, findam. Quando digo que te escrevo do fundo do meu coração não quero que pense que minhas palavras para você ocupam um final, um pedaço, aquela tangente ignorada ou mal ocupada. Quando digo que te escrevo do fundo do meu coração, digo isto pois as palavras que te devoto preenchem. Abarrotam, enchem. As palavras que mais de uma vez tive que te escrever inundam todo um corpo, toda uma alma. E passa a ser uma vontade, um entusiasmo, uma necessidade e podemos até dizer que um leve capricho. Te escrever passa a ser intrigante, belo. Movimenta todos os músculos do corpo. Dá calafrio da ponta dos pés ao último fio de cabelo. Acelera os batimentos cardíacos, prende a respiração. Arrepia.
Imagine um balde: ele não tem furos, sendo assim a água não sairá pelas suas beiradas e se houver controle do fluxo, tão pouco transbordará. Todavia, enchê-lo requer cuidado, zelo. Da mesma forma que te escrever. Escrever-te requer paciência, calmaria, para que cada palavra seja colocada em seu devido lugar e faça sentido, desde a intonação à coerência para que não transborde, para que não haja excessos, e dia após dia exista o que ser dito (no caso, escrito). Escrever-te intensifica o uso das conjunções a fim de prolongar o tempo e dar voz as palavras e sua falta de limite.
Sinceramente querido, esqueça tudo o que fora lido até agora. Gostaria de poder enfim dizer-te a verdade:

Quando digo que te escrevo do fundo do meu coração é mentira. A maior mentira de todas. Desculpe-me… Mas fundos um dia secam e está vontade de te escrever, enlouquecidamente, farei de tudo para que não seque: jamais.

Platonicamente: a recíproca é verdadeira.

Mariana Cassiano

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