Carta ao Tempo

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Querido Tempo,

Ajeite a bagunça que você deixou e saia sem bater a porta. Ultimamente tenho percebido que raramente portas são fechadas e sequer batidas. As pessoas estão evitando. Evitando problemas, causos, indagações. Evitam gritaria, raiva, choradeira. Evitam. Evitam ligações, cartas, surpresas, convites.
Evitam por não achar necessário.
Portas são deixadas entreabertas para que o vento traga novos ares, novas conversas e opiniões. Não que não goste de ventos, mas prefiro as ventanias (se é que me entende). As pessoas modelam tudo. Existe o horário de conversar, de namorar, de se olhar e de se agarrar. Ora Tempo, não seria tudo a mesma coisa? Não entendo. Acho que seja por isso que me farto. Me farto dos olhares, dos romances, dessa necessidade de mim.
Se eu me bastasse… Ah se eu me bastasse, Tempo… Minha incompreensão seria muito melhor entendida. Porque só estando na pele de alguém, que podemos entender verdadeiramente os “nãos” que ela faz em detrimento de nós mesmos. Contudo, como o auto amor não condiz com a minha figura e que ser feliz sozinha é algo meramente impossível, oferto aquilo de que melhor possuo para que alguém possa cuidar.
Mas não cuidam.
Tempo, me explique porque somente você resolve tudo? Porque somente você preenche as sobras que faltam dentro da razão ou emoção? Porque você e somente você pauta os motivos e as dúvidas que aparecem por aí? Me responda porque eu devo sempre mencioná-lo caso as explicações não sejam plausíveis ou que a frieza roube as palavras tão treinadas na frente do espelho para dizer? E não adianta mentir, pois desde pequena escuto falarem de você: “deixe que o Tempo ajuda”; “espere o Tempo”; “o Tempo trará maturidade?”… Me explique porque somente você resolve tudo?
[…]
Querido Tempo, se não tem respostas para mim simplesmente peco que não roube mais meu tempo, ajeite a bagunça que fez e bata a porta. Mas bata de verdade, com sinceridade. Faça um estrago, arranque as telhas, faça as paredes caírem. Pelo menos uma vez na vida Tempo, mostre que você realmente quer fazer alguma coisa, pois até agora sua quietude e a calmaria de seus dias de sol só confundem minhas vontades. E se também te chamam de relógio deve já estar percebendo que a hora de despertar se aproxima.

E se for para vir que venha como ventania, furacão, seja o que for, pois esta brisa leve não diminui mais a minha dor.

Mariana Cassiano

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