O telefone

E hoje lembrei dos dias e noites em claro, ouvindo o som do silêncio, tentando entender porque você não apareceu aqui para me fazer uma visita. Contei os dias até hoje, desde aquele incidente e te juro que desde aquele dia deixei a porta entreaberta na expectativa que voltasse com o pé direito (ou esquerdo tanto faz) mesmo que só para trazer um cordial bom dia e um sorriso cerrado. Lembrei dos telefones que desliguei primeiro e pensei que talvez, só talvez, se não os tivesse desligado você ainda estaria aqui. São só pensamentos, nada real, eu prometo, eu só queria saber daquele último telefonema: se não fosse seu a desligar, teria ainda continuado a ligação? […]

Lembrei também das cartas e frases feitas nos cartões que vinham junto com as flores… Que de tão feitas tornaram-se nossas. Você ainda as usa com alguém? Ou guardou-as junto com todos os papéis que trocamos aquele verão? Aquele verão, lembra-se? Choveu tanto que nos molhávamos todas as vezes que estávamos voltando para casa… Você ainda se lembra de mim? […] Desculpe-me, desculpe-me, risque essa última pergunta, estou escrevendo em um papel solto do caderno e ainda estava pensando na chuva quando essa pergunta saiu, sem querer, é claro. Na verdade, risque todo esse texto, mas não queime por favor, só risque, gaste um pouco de tempo comigo, riscando cada linha que aqui escrevi, talvez ao lê-lo novamente encontre a parte em que eu não deveria ter desligado o telefone. Mas caso não queira perder esses minutos, eu entendo. Continue achando que eu desliguei de propósito naquela noite, 4 de setembro de 82. Era um dia de sol, mas eu previ chuva. Naquela praça, você bêbado de vinho e eu embriagada de raiva porque você não queria mais esperar chover. [Você simplesmente não quis mais esperar chover].

Você não ficou e isso doeu, sabia? […] Poderia ao menos ter falado que se eu não tivesse desligado o telefone você ainda estaria aqui e eu poderia até esquecer de “chover” as vezes.

Agora estou sentada naquela mesma praça um ano depois. Exatamente 4 de setembro de 83. São 5 pras 6 e o jornal falou que no final da tarde iria chover. Então estou aqui esperando pela chuva, mas dessa vez ela não vem, eu previ. Um copo de vinho do meu lado, um pouco bêbada talvez… De vinho e de raiva: tentando entender porque eu desliguei aquele maldito telefone.

Se isso for uma música talvez esse seja o refrão.

Naquela tarde não choveu.

Mariana Cassiano

Anúncios

2 comentários sobre “O telefone

O que achou do texto?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s