Peripécias da madrugada

Escrevo-te, brevemente, em linhas simples e pouco confusas; escrevo-te a mão com as letras desengonçadas por culpa do sono, eu juro, só para dizer-te que amor dentro de mim existe, mas talvez ainda falte defini-lo como qualquer pessoa bem instruída deve fazer antes de apaixonar-se. E por apaixonar, atribui-se todas as hipérboles e gerundismos possíveis a esse verbo: letras garrafais escritas em um guardanapo ao fim da noite, um grito do outro lado da rua quando a distância é grande demais para correr e correr e correr. Por isso, por não saber alocar os verbos descentemente em meus dias e tardes e noites, é que as madrugadas vem ficando cada dia mais próximas e fraternas, dando espaço a imaginação é àqueles pensamentos meio confusos, meio estranhos que o dia não permite lembrar.
Mas, escrevo-te. E essa é a única verdade que nesse instante, eu posso te contar. Na verdade, escrevo-te para que saibas que sobre ti recaem meus pensamentos, e sobre eles tem você quase total e intransponível culpa. Ora, escrever-te é como respirar em meio a um céu limpo e estrelado sem nenhuma nuvem ou poluição a vista; é como ouvir os cantos dos passarinhos logo pela manhã; é andar em linha reta sem se preocupar com os buracos que ferem o asfalto; é desenhar em uma folha branca um sol e uma montanha; ou seja, é fácil! É fácil rabiscar palavras que façam florescer um sorriso em seus lábios, tão fácil que aposto que está sorrindo agora. Acertei? É fácil poetizar o brilho dos seus olhos, o calor do seu abraço, o suor da sua mão tão distante da minha agora.
Escrever-te… Escrever-te é fácil, e por isso não me nego a escrever. Tudo isso para que saibas que durante algumas horas do meu dia, fostes tu o percursor de minha imaginação, aquele que movimentou meus dedos a fim de redigir este poema. Poema um tanto complexo demais, extenso demais, mas cheio de significado. E o significado é claro: escrevo-te.

Escrevo-te somente a ti.
Para sempre.

Mariana Cassiano

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Um pouco de tudo

A vida é feita de poesia
e é dela que tiramos o mais proveitoso que há
a cada caminho podemos encontrar uma saída
mas nada melhor do que se doar

Ao olhar para as estrelas encontramos refúgio amigo
uma história, um brilho, uma canção
olhamos mais uma vez para o céu
buncando – talvez – inspiração

Levamo-nos a acreditar em um mundo que talvez não exista
um lugar que habite somente em nosso pensamento
então colocamos rimas em nossas vozes
buscando a veracidade do mundo a todo momento

Exageramos nas linhas
no contorcer das palavras
entoamos versos sem nexo algum
e desejamos que o poema seja mais do que um

[…]

Não vejo graça em poesia
não entendo o porque de tanto sofrer
os parágrafos ao fim de cada verso
dão-me vontade de correr

Pois me digam, leitores
onde veem graça nessas pausas
no mundo da escrita não há tempo
para esse respirar de aristocratas

Exigem muito mais do que podemos dar
muita métrica, muito cuidado, muitos ais
Devemos ficar atentos ao que dizemos – e como dizemos
correndo o risco de falarmos coisas confidenciais

Estão vendo, nem me entendo
toda esta obrigação de correta ter que ser
não posso falar o que quero e como quero
pois corro o risco de rima não fazer

Quatro linhas apenas
quatro linhas devem resolver
um enigma e uma vontade imensa
de tentar – inutilmente – me descrever

Não há espaços pois não é permitido
igual a vida que comecei a escrever
resta-nos olhar para as linhas como olhamos para o céu
e delas tirar o que de melhor podem nos oferecer

Mas, ah, as estrelas
estas me fazem compreender
que mesmo que olhe para o céu e não as veja
faço minha oração e uma há de aparecer

[…]

Tanto poesia quanto estrela
tanto céu quanto o mar
dei-me um papel e uma caneta
que o conseguirei decifrar

Escrever não é difícil
equivocado está quem imagina que seja
escrever te liberta do que te aprisiona
oferece seu coração – aos outros – numa bandeja

Desculpem-me pelo desatino da poesia
pela falta de conteúdo
disseram-me que deveria obedecer as regras
mas não ensinaram-me tudo

Disseram-me que poderia escrever sobre mim
sobre pessoas, coisas, literatura
convenceram-me a tentar escrever
mas o que posso fazer se minha vida é uma loucura

Conto números, escrevo poemas
Faço mil coisas que não se interligam de jeito algum
não me censurem por tentar escrever de um jeito
que não lhes convence que não é comum

Sou apenas uma menina
que anula sua postura de mulher
enxerga o mundo colorido
e não preto e branco do jeito que é

Tento fazer poesia
crônica, anedota, metáfora, o que for
tento fazer-te rir a todo momento
para suavizar sua falta de amor

Misturei tantos assunto
mas termino deste jeito
não importa como comece sua vida
olhe para o céu e tudo estará feito

A vida tem dessas coisas
o importante é não desistir
acredite nas estrelas quando dizem
“sonhe com os anjos pois é hora de dormir”

A vida é feita de poesia
e é dela que tiramos o mais proveitoso que há
a vida pode nos tirar tudo
mas que não nos tire a vontade de sonhar

Mariana Cassiano

São palavras

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Pena de escrever
receio de sujar mais uma página em branco
com minhas mazelas
minhas tristezas
ou asperezas
Não pensem que é fácil
não é só um juntar de letras
as palavras podem fazer sentido
ou não
mas com certeza dizem algo
Realmente
literalmente
não está fácil para ninguém
Pronto
mais uma folha rasgada
amassada pelo descrédito
pelo dito e sonoro
“não
não ficou bom”
Falta que eu apareça
que conte minha verdade
que finja para todos que não sou eu
quando, na verdade, é tudo sobre mim
As palavras, também, estão fáceis demais
tenho de culturizar isso aí
Vejamos:
Paralelepípedo
prolixo
ócio
BLERG
Que estranho
amasso
Esqueçam esse poema
esta chato
esquesito
feio
Ou não esqueçam
lembrem-se do pior poema
das piores palavras
piores sentimentos
piores ais
(Tanto faz)
as palavras são minhas
ponho-as aonde quiser
ou não-quiser
Não és obrigado a ler
mas sou obrigada a escrever
São palavras, querido
e mesmo que não fizessem sentido
seria um crime inafiançável não deixa-las
existir

Mariana Cassiano

Habite-me

Mariana pediu-me para não contar
mas contarei mesmo assim

Hoje ela sonhou com o mar
Sonhou como se ele a carregasse
E porque não poderia a impregnar?
Viu que de tudo tem deste imenso pélago
a vida
a intensidade
o nome
Refugie-se oceano
Guarda-se mar
Ela deseja roubar-te
Ou na realidade já o tem
Mas…
Como é possível algo tão gigantesco
subentender-se em alguma coisa que já possui referencial?
Sim, tripulante
Quando Mariana mergulha pelas profundezas
nada mais faz do que mergulhar dentro de si própria
E quando deixa-se dominar pelo abismo
só está mostrando onde fica sua casa
E ela deseja levar-te para casa
e ela quer levar-te para ela

Ah, Mariana…
O que seus olhos não veem
o oceano faz questão de te mostrar
Como que uma sereia
com encantos e desencantos
Portanto, marujos, cuidado
há um certo falso encantamento por esta sirena
Uma intensa sedução
que não passa de pura dominação
Deseja influenciar-te
mas te tiraniza
Anseia por teu corpo
mas cobiça, na verdade, tua mente
E em seu caminho
não existem flores, nem passarinhos
Existe água, mais água e coração
Cada vez que nadam
a fim de conhecer mais da sereia
mais frustrados ficam
Pois quanto mais perto
quanto mais próximo
menos se vê
O mar esconde
O mar protege
O mar sou eu

E um dia irei roubar
o mar de Mariana

Mariana Cassiano

Sobre o amor

Vivo em um conto de fadas, a mercê do tempo. Li tantos romances, tantas aventuras. Vi Rose lutar por um amor impossível e Capitu tentar provar que o balanço de seu corpo nunca pertenceu a outro homem a não ser Bentinho. Li Julieta perplexa ao ver seu grande amor morto e com tamanha frieza ter morrido por amor, também. Vi Clarice amando errado e portanto falando deste mesmo amor equivocadamente. Reli inúmeras vezes as complexas definições, as feições, as menções de Pessoa sobre este tão inconstante amar. Enquanto isso, Mario Quintana sussurrava rente aos meus ouvidos, dizendo “se me amas, ama-me baixinho, bem devagarzinho, sem loucuras ou coisas assim”. Por outro lado, Veríssimo, encantava-me com suas hilárias comédias sobre o amor e o encontrava até mesmo no lixo que futuramente seria dividido por dois completos desconhecimentos. Talvez Jane Austin tenha retratado apaixonadamente a mais intensa e completa forma de amar, ao mostrar Elizabeth e Ms Darcy se odiando enquanto se amavam, perdidamente. E enquanto isso, Nichollas não ficava para trás com suas pitorescas histórias de amor em sua total e vasta forma. E a medida que essas maravilhosas histórias iam acontecendo, minha Barbie namorava o Ken (quem?), minha fita cassete cansava de tanto passar e rebobinar os inúmeros filmes das princesas e a máquina de escrever esperava por mais uma tentativa de escrever. Hoje, vivo em um conto de fadas, a mercê do tempo. Sou a princesa, a mocinha, a feiticeira, a escritora, a cineasta. Hoje escrevo para que se perdure também (pela eternidade) as histórias pelas quais morri de amor ou fiz morrer. Faço com que minhas histórias ganhem vida e vivo as histórias que aqui conto. Sem mentiras ou trapaças. Portanto, não se espantem ao ver algum sapatinho de cristal jogado em alguma escada. Sim eu fui ao baile encontrar meu príncipe. Dancei até cansar e fui feliz. Mais é que igual aos contos de fadas, quando dá meia noite o encanto acaba. Só para ser vivido mais uma vez. De outro jeito. Completamente diferente. Mais que seja vivido, mesmo que a mercê do tempo.

Mariana Cassiano

Cara musa,

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Sei que possuis o mundo em tuas mãos
mas não possuis a si própria
Sei que também possuis a indecisão
mas não possuis coragem
Possuis a arte de encantar
mas não encontras teu fetiche em canto algum da sala
Possuis uma resma de papel e caneta
e não possuis vontade de escrever
Possuis até o dom
mas procuras inspiração no vento

(silêncio)

Sei que tens medo, menina
Sabes que não há mal algum em teus receios
A questão é que ninguém ainda lhe tirou-os
Vi também todas as vezes que se fechava em seu mundo
e ninguém lhe salvava
deixavam-na lá
quieta
e quando choravas a míngue
ninguém perguntava duas vezes
o motivo de suas reais lágrimas
e quando fortificavas a voz
não desconfiavam da tua estranha mansidão
e quando falavas baixinho
acreditavam em teu primeiro “tudo bem”

(silêncio)

Sei que sentes falta daqueles olhares complacentes
Sei que precisas do conforto de uma voz
Sei que choras ao não poder chorar
Sei que gostaria que te entendessem perfeitamente
Sei também que não estás bem
A moça não está bem
A moça não está nada bem
Mas no fundo
bem lá no fundo
ninguém liga
e tu sabes disto
Eles só precisavam de ti
forte e preparada como sempre
pronta para responder qualquer dilema ou dúvida
qualquer problema ou situação
somente precisavam de ti
mais nada

(silêncio)

Velha menina
preocupar-se demais trás rugas
Logo tu tão linda, tão doce
com rugas?
Pois é, velha menina
Tuas costas estão largas demais
Um dia tu permitiste que isto acontecesse
agora aguente as consequências
da tua própria autoproteção

(silêncio)

Não!
Não vá embora
não quis ser grosso contigo
mas precisavas escutar estas coisas
mesmo que não tenha gostado
mesmo que não queiras
mesmo assim
me perdoe

(silêncio)

Estou ao longe te observando
e sei que não estás bem
e sei os motivos também
Só…
tente…
ficar…
calma…
Tu possuis o sonho da imensidão
e mesmo que nada lhe possua,
neste exato momento
pode ter certeza,
cara musa
que as palavras sempre lhe possuirão.

Bela

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Maria gostava do cheiro das rosas
enquanto Ana gostava mesmo é dos espinhos
Uma sorria para o mundo
outra sorria para a vida
Para o cheiro a segunda nem ligava
Dos espinhos a primogênita tinha receio
E eis que surgiu Mariana
Gostava das rosas por inteiro
Desde o caule
Até o cheiro
Todas as cores lhe chamavam atenção
Mas da vermelha
Abria um pouco a mão
Paixões, amores ardentes
Doíam um pouco a cabeça
Doíam um pouco a mente
Não que tivesse medo de se apegar
Mas as rosas mesmo pequenas
Podiam machucar
Mas daí lembrou-se de Ana
Ah, Ana tão desbravadora
Sentada na cama, escrevendo poesias
Tão belas, tão lindas
Pareciam com as poesias de Maria
Só que com pouco amor
Havia muita lira
E enquanto isso
Mariana: a mistura de Maria e Ana
Sorria no beliche do quarto
revirando o baú
sentada no amontoado de papéis de guardanapo
Aqueles mesmos que Maria escrevia
quando não tinha mais onde escrever
e o que sobrava era uma caneta
encontrada no fundo da bolsa vermelho-godê
E depois vinha Ana
cantando, se requebrando
Tentando entrar na dança
Como se fosse mole
fingir não ter coração
Melhor tomar é um gole
dessa bebida de paixão
Mariana lia tudo isto
Todas estas histórias
Todos estes feitiços
Até que ela percebeu
Os amores todos são lindos
Os sofreres motivos tem também
Maria e Ana não sabiam é de nada
Viviam no mundo delas
Achando que a vida era palhaçada
Mariana que sabia bem
Contava histórias
Vivia a vida como ninguém
Sofria um pouquinho
Mas quem não sofre não é?
Ainda mais quando o tempo passa
Igual uma apresentação de balé
E nem se vê
E nem se encontra
Passa com a brisa que surgiu
e já se foi
com medo do que viu
Mariana tinha medo
mas também era de uma coragem
estonteante
Tinha receio da vida
mas bravura a todo instante
Foi então que ela percebeu
Tinha coragem por Ana
E por Maria se compadeceu
As flores não eram problema para ela
Problema mesmo era passar pela vida
Esquecendo-se de ver o quanto é bela

Bela por Maria
Bela por Ana
Logo assim
Bela por
[…………………………………..]

Mariana Cassiano

Feliz 2014!