As escadas

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Eram 7:00 da noite quando ele me chamou para “dar uma volta por aí”. Na realidade as palavras foram “vamos andar um pouco”, sugeriu. Com as mãos estendidas e um largo sorriso branco estampado no rosto, ele me segurou e me encaminhou para o que eu ainda não sabia o que era.
Foram dois lances de escada e elas nunca pareceram tão grandes para mim. Um passo em falso e eu caia. Não meu corpo, não eu, mas minha alma. Um passo em falso e aquela escada não aguentaria todos os pensamentos que naquela hora eu trazia comigo.
“Espere um minuto, por favor” ele dizia, enquanto se adiantava a minha frente para ver algo antes de mim. Não há problema, pensava comigo mesmo, eu espero. Um pouco de receio talvez, não nego, mas já que estava ali me restava esperar. Fugir era de longe a pior decisão.
Eram 7:05 da noite quando bem baixinho ele me pediu para subir. Como assim? Eu, subir? Estava muito bem naquela posição, a vista era linda e o vento estava até balançando o meu cabelo. Novamente, com um tom um pouco mais alto ele pediu para que eu subisse. Ok. Subo. De pé em pé, degrau em degrau. Fui escalando aquela que parecia ser a maior escada do mundo, pelo menos para mim, pelo menos naquele momento.
Subi.
E não havia cadeira, mesa ou um sofá. Não tinha comida, nenhuma vela, nem jardim. Só havia ele e algo que gostaria de me mostrar. E com aquelas mãos calejadas do trabalho de uma semana inteira e aquele sorriso largo, ele me segurou (com cuidado) e me virou aos poucos para o que seria o meu presente. E sem tirar os olhos daquela paisagem ele respirava e soluçava algumas palavras como se quisesse que eu confirmasse para ele algo que nem ele tinha certeza… Tão pouco eu.
Silêncio.
Alguns pontinhos…
E pela primeira vez eu virei meu rosto para o rosto dele, me desviando do que seria o meu presente, sem que ele pudesse ter tempo de perceber. E foi aí que eu pude entender o que ele quis me oferecer. Ele me ofereceu o seu mundo, todo ele, que não é mais bonito do que o de ninguém, nem o mais incrível ou o mais estonteante, mas era dele. Era dele sem mentiras, sem exageros, sem hipérboles ou pleonasmos. Era o mundo dele no qual me chamava para participar. Era como uma valsa que não permitia solo, ou eram dois ou não era nada.
E…
eu…
amei…
Em meio a milhares de suspiros, balbuciava repetições que para uma escritora chega até ser vergonhoso: “lindo, lindo, lindo…” era tudo que eu conseguia dizer.
E ele sorria (como não sorrir?). Sorria com aquele seu sorriso largo; satisfeito, vitorioso como quem acabara de criar o mais lindo poema de todos. E ele criou sim.

Não vou mentir, as luzes aquela noite brilhavam mais forte, a lua estava cheia e a igreja toda iluminada de azul, e eu tenho absoluta certeza que de qualquer janela da pequena cidade era possível contemplar aquele singelo e lindo amor que nascia. Era necessário somente limpar a alma. De degrau em degrau tal qual as escadas que, naquela noite, me levaram ao céu. Um céu que tinha pela primeira vez nome… e… sorriso…

Mariana Cassiano

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Peripécias da madrugada

Escrevo-te, brevemente, em linhas simples e pouco confusas; escrevo-te a mão com as letras desengonçadas por culpa do sono, eu juro, só para dizer-te que amor dentro de mim existe, mas talvez ainda falte defini-lo como qualquer pessoa bem instruída deve fazer antes de apaixonar-se. E por apaixonar, atribui-se todas as hipérboles e gerundismos possíveis a esse verbo: letras garrafais escritas em um guardanapo ao fim da noite, um grito do outro lado da rua quando a distância é grande demais para correr e correr e correr. Por isso, por não saber alocar os verbos descentemente em meus dias e tardes e noites, é que as madrugadas vem ficando cada dia mais próximas e fraternas, dando espaço a imaginação é àqueles pensamentos meio confusos, meio estranhos que o dia não permite lembrar.
Mas, escrevo-te. E essa é a única verdade que nesse instante, eu posso te contar. Na verdade, escrevo-te para que saibas que sobre ti recaem meus pensamentos, e sobre eles tem você quase total e intransponível culpa. Ora, escrever-te é como respirar em meio a um céu limpo e estrelado sem nenhuma nuvem ou poluição a vista; é como ouvir os cantos dos passarinhos logo pela manhã; é andar em linha reta sem se preocupar com os buracos que ferem o asfalto; é desenhar em uma folha branca um sol e uma montanha; ou seja, é fácil! É fácil rabiscar palavras que façam florescer um sorriso em seus lábios, tão fácil que aposto que está sorrindo agora. Acertei? É fácil poetizar o brilho dos seus olhos, o calor do seu abraço, o suor da sua mão tão distante da minha agora.
Escrever-te… Escrever-te é fácil, e por isso não me nego a escrever. Tudo isso para que saibas que durante algumas horas do meu dia, fostes tu o percursor de minha imaginação, aquele que movimentou meus dedos a fim de redigir este poema. Poema um tanto complexo demais, extenso demais, mas cheio de significado. E o significado é claro: escrevo-te.

Escrevo-te somente a ti.
Para sempre.

Mariana Cassiano

Será

Será?

Olha nos meus olhos e diz que isso não vai acabar amanhã. Me diz que ainda vou ouvir o som da sua voz dizendo entre os dentes “graças a Deus que você apareceu” e que não vai querer me deixar ir embora no final do dia. Por mim ficávamos aqui mesmo: eu, você e esse céu estrelado. Te garanto que teríamos muitas coisas para conversar e para ver. O céu… as estrelas… a lua… Pena que nada disso importaria de verdade porque eu só estaria querendo ver os seus olhos.
Sabe, depois de um tempo e uma certa idade (risos), a frequência e constância dos encontros marcados, beijos apaixonados e promessas feitas em um lugar escondido, perdem o sentido, e eu só desejo ter um ombro aconchegante para repousar ao final do dia. Só desejo aquela pessoa que faça o tempo literalmente andar mais rápido e que não dê tempo nem de aproveitar um pouco mais da sua presença. Aquela pessoa que surpreenda com a vontade de estar ao meu lado, viver a minha realidade e amar essa mudança. Aquela pessoa que me faça respirar mais devagar, ela, do riso fácil e do conversar fácil também. Aquela pessoa que me faça perder a noção do tempo, tamanhas foram as histórias contadas naquele fim de tarde que chovia tanto que seriam precisos vários abraços para esquentar se não fosse o lugar mais repleto do mundo os braços em que eu já me encontrava. Aquela pessoa que se orgulha de estar ao meu lado e que se perde tamanho é o olhar de admiração por estar ali mesmo que em silêncio.
Só desejo aquela pessoa – (A-Q-U-E-L-A) – que faz meus pontos de interrogação virarem exclamações estendidas em panos, faixas, outdoor pelas ruas da cidade, cartazes, mensagens no celular que faça com que não me importe se a amiga da vizinha da minha tiavó viu o meu sorriso estampado na cara. Até porque quem disse que eu tô tentando esconder? Que não ligue pro clichê, pro dito e pro não dito, pela espera ou pela demora, que simplesmente permaneça mesmo que eu jamais tenha pedido isso.
Daí são nesses momentos que me pergunto:

Será (ponha uma interrogação)

Não (agora três pontinhos)

Será (e aqui coloque todas as exclamações que conseguirem contar de estrelas do céu. Porque eu quero, não porque eu devo.)

Mariana Cassiano

He really is

Ele é de verdade
eu toco
sinto seu cheiro
blusa amarrotada
de uma manhã preguiçosa
suor, beijos, suspiros

Ele é de verdade
eu vejo
fito seus olhos
sinto suas mãos
mãos geladas
porque é frio e ele
ele foi me ver

Ele é de verdade
eu te mostro
sinto seus dedos das mãos
dos pés, sua orelha, seus olhos
a boca
ah a boca eu sinto

Ele é de verdade
eu atento
presto atenção na música do rádio
indireta
ou direta
não importa
são para mim

E por falar em música
eu já criei um acervo
com as músicas
as fotos, as lembranças
até o próprio pensamento
para que eu lembre
para sempre
que ele é de verdade


Porque ele é
ele é de verdade
e quem sabe
um dia
a
minha
verdade?

Mariana Cassiano

Fogo

Quando os olhares se cruzam e ficam se distraindo para não admitir que estão se fitando, o coração amolece. Quando as mãos frias se tocam e se repelem e devagarzinho vão se aproximando até que uma possa aquecer a outra, o coração amolece mais um pucado. Quando o primeiro pensamento do dia e o último são frases feitas e com pouco significado, mas com muita sinceridade, o coração amolece mais um pouquinho.
E imersos a milhares de quandos, porquês, comos, eles vão levando aquilo que chamam de “conhecimento”. Ora não se pode ter por rotina algo que não se conhece, não se pode exigir presença daquilo que não se sabe a constância. O tempo faz questão de andar mais devagar quando pensem em apressar as coisas. Então não sejam tolos iguais casais apaixonados, nem cometam os mesmos erros de outrora, entendam que o gostoso de uma relação é sentir cada encaixe que existe, não no corpo, mas na alma.
Entendam que não existe um botão chamado evolução, evolução se conquista com um passo de cada vez, quando a admiração supera o desejo, e a vontade de ver aquele sorriso outra vez ganha por nocaute da vontade (seja ela qual for).
Dizem que eu te amo é a frase mais bonita que pode soar de uma boca ao fim de uma conversa. Que mentira! Bom mesmo é desligar o telefone ou se despedir no portão de casa e dizer: você não faz ideia do quando está me fazendo feliz.

Mariana Cassiano

Portfólio de tristezas

I
Do lado da minha cama vários papéis
Textos escritos a mão e cheios de significado
amassados e rasgados
textos que escrevi enquanto esperava as lágrimas caírem
ou fazerem pelo menos o seu caminho que saia dos olhos
e paravam no canto da boca
todos os textos em vão
Nenhum deles ficou ao nível que você merece
Todos ficarão bons demais para você.

II
Eu desisti de você
mesmo estando os todos os dias na minha cabeça
Eu desisti de você
mesmo que meu orgulho tenha que ser engolido
todas as vezes que eu vejo alguma fotografia sua perdida por aqui
Eu desisti de você
por causa daquele telefonema as 4 da tarde
e você não deu a mínima
Eu desisti de você
desde quando eu te pedi uma palavra e veio o silêncio
Eu desisti de você
quando eu quis te abraçar e você só quis calor
Eu desisti de você
e mesmo que seja para você este texto
foi só para te dizer que eu desisti
Eu desisti de você.

III
Você não nasceu para ser amada
isso é normal e acontece
em uma a cada dez pessoas
e foi você a premiada
Ponha logo nesta cabeça
de uma vez por todas
que as vezes só as vezes
você não nasceu para ser amada
Depois de quatro ou cinco vezes
acaba aprendendo e parando de tentar
E se um dia você aceitar
nunca mais vai sentir nada

IV
E esse coração de pedra, menina? Nasceu no seu peito ou você fez questão de esculpir?

V
“E a dor é tanta que você precisou fragmentar seu textos em vários pedaços?”
– É para combinar com o coração, moça.

Mariana Cassiano

 

 

Lá e cá

Encontrei alguém. Alguém que faz com que o toque seja mero detalhe dentro de todo o baile chamado relacionamento. Não há toque de mãos, mas se houvesse seria o melhor toque de mãos. Não tenho como contemplar seus olhos e ficar o fitando por horas a fio, mas se isso eu pudesse fazer garanto que perderia horas só admirando-o. Deitaria no seu ombro se isso eu pudesse fazer e sentiria suas mãos acariciando meu rosto, enquanto eu segurava seu corpo todo junto a mim, para que ele pudesse entender que aonde eu estava, ali naquele momento, era aonde eu mais queria permanecer.

Ele então, se pudesse, me olharia, com um ar de surpresa e descoberta: “Vamos sair para passear hoje? Conhecer a cidade?” ou quem sabe um tão sonoro “Vamos ficar aqui!” Não importaria que pedido viesse ou como viesse. Não importaria a intonação da sua voz, ou a quantidade de vezes em que ele se atrapalharia ao dizer o quanto eu estava bonita naquela tarde ou que estava com fome e o café ainda não chegou. Não importaria o tempo passando e nós dois observando do lado de dentro da janela, tumulto demais, gente demais, mas lá dentro, havia amor demais.

Mas (ah) se ele estivesse por aqui agora, contando com os meus dedos quantas vezes ri meio desengonçada, mal sabendo ele que os risos são somente por ele estar ali, mal sabendo ele que depois de um longo tempo ele que conseguia me fazer sorrir. Para descontrair um pouco jogaríamos: estaria frio, um bom chocolate quente, uma coberta, um bom lugar para preparar uma estratégia perfeita para dominar alguma região, ou apenas umas desculpa. E quando levantasse para buscar o café, se ele soubesse, o quanto eu ficaria sem jeito se ele não parasse de me olhar meio abobado, como que quem olhasse um prêmio, como quem olhasse uma bela história, não faria isso de jeito nenhum.

Contudo fatos ficam presos somente da imaginação, histórias bonitas, cheias de significado, limitadas por algumas linhas ou vozes que tentam aproximar o que está mais distante. Mas mal sabe ele que só precisaria dizer pequenas e poucas palavras para que eu esperasse daqui da minha janela esse dia aparecer. Mas (ah) mal sabe ele que eu… Eu encontrei alguém… Alguém: que amanhece meus dias com tanto amor como se estivesse acordando e me deparando com seus olhos, que dá sentido aos meus dias cinzentos lá e cá.

Alguém com ele.

Mariana Cassiano